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Melhora condicional

Em seminário na FGV, Ilan Goldfajn, presidente do BC, e o economista Samuel Pessôa apontam o calcanhar-de-aquiles da retomada da economia brasileira.

Fernando Dantas

06 Abril 2018 | 16h55

O presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, tem uma visão simples e tradicional sobre o cenário internacional excepcionalmente benigno para países emergentes como o Brasil que prevalece atualmente: combinação de retomada sincronizada das principais economias do mundo e juros internacionais ainda excepcionalmente baixos.

“Em algum momento esse cenário cai terminar”, disse Ilan, em apresentação na segunda-feira, 2/4, no seminário “A Retomada do Crescimento”, na sede da FGV/Rio. A visão por detrás desse vaticínio é de que, ou o crescimento global perdura e, neste caso, em algum momento os juros voltarão a níveis historicamente normais; ou a expansão mundial rateia, condição para que o cenário de juros muito baixos prossiga indeterminadamente.

O que não dá, nesse raciocínio, é querer ficar para sempre, ou por prazo muito longo, com o melhor dos dois cenários: crescimento vigoroso do mundo e juros extremamente baixos.

Ilan crê mais no cenário de prosseguimento da recuperação e normalização dos juros. Neste caso, ele explicou, ainda que as coisas transcorram de forma ordeira, haverá um pouco menos de apetite de risco para ativos de emergentes como o Brasil. A fase internacional atipicamente tolerante, portanto, vai passar, e é bom que o País tenha engrenado, antes que isto ocorra, a agenda essencial de reformas para dar conta do problema fiscal, com destaque para a Previdência.

A palestra do presidente do BC se encaixou bem com a apresentação anterior, no mesmo seminário, de Samuel Pessôa, economista-chefe da gestora e Reliance e pesquisador associado do Ibre/FGV.

A sintonia entre as duas visões está no fato de que os ganhos em termos de estabilização macroeconômica, queda da inflação e retomada do crescimento ocorridos desde 2016 refletem uma onda de bem-estar mais provisória do que permanente.

Assim, pensando-se especificamente na política monetária, o risco (nas palavras de Ilan) de que a inércia segure a inflação em níveis muito baixos relativamente à meta é mais imediato (está refletido nos núcleos), mas também é mais conjuntural – grandes choques poderiam mudar essa perspectiva. Ilan classificou esse risco de “bom” porque o BC tem instrumentos mais do que suficientes para lidar com ele: basicamente, uma taxa básica que ainda pode ser cortada.

Já o risco inverso, que poderia impulsionar a inflação, é o de uma combinação entre reformas não realizadas e uma piora mais acentuada do cenário externo. Ilan não explicitou os canais pelos quais isso ocorreria, mas é claro que se trata da piora do risco Brasil trazendo instabilidade macroeconômica e desvalorização cambial.

O cenário externo muito favorável faz com que os sinais desse risco estejam muito mais camuflados, mas Pessoa em sua apresentação indicou que ele não está tão oculto assim. Os juros reais nas NTN-Bs mais longas – que resistem à queda acentuada do juro curto e permanecem em torno de 5% –  indicam que o mercado não está transferindo para prazos mais longos o bem-estar corrente, e preocupa-se como o desequilíbrio fiscal estrutural do Brasil.

O elevado juro real longo, acrescenta o economista da Reliance, é um freio à retomada dos investimentos e, desta forma, compõe o quadro de retomada muito gradual da economia brasileira. A perspectiva de um ciclo de crescimento econômico sustentável a partir das melhoras recentes, portanto, é dependente da hipótese de que o próximo presidente atacará com firmeza a questão fiscal, o que pode baixar o juro de longo prazo e permitir de forma duradoura um ritmo mais forte de expansão. (fernando.dantas@estadao.com.br)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/4/18, segunda-feira.