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Mercado já vê impeachment como cenário mais provável

Alta dos ativos brasileiros hoje reflete alta probabilidade atribuída pelos analistas a que Dilma sofra impedimento a curto prazo.

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Fernando Dantas

17 Março 2016 | 19h16

A alta dos ativos brasileiros hoje tem uma razão clara: os eventos dessa quarta-feira histórica foram lidos pelo mercado como algo que tornou o impeachment em prazo relativamente curto bastante provável. A mudança de governo tornou-se o cenário base para diversos analistas. E a aposta é que o previsto governo Temer será, pelo menos, melhor que o governo Dilma.

“Foi o prego no caixão de Dilma”, diz Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM. Segundo Ribeiro, “ela não tem mais sustentação e vai sofrer impeachment – estou apostando que isto ocorra dentro de uns trinta dias”. Ele considera que as manifestações de rua que brotaram espontaneamente ontem reforçam a probabilidade de saída da presidente.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, diz que “o impeachment agora é o nosso cenário base, com uma probabilidade de bem mais do que 50%”.

Ambos os analistas acham que já não tem importância o fato de que o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve o rito – até recentemente considerado mais difícil para quem deseja impedir a presidente – que determinara para o processo do impeachment.

“Agora o rito não tem tanta importância, a tendência do PMDB é caminhar para impeachment, já que o governo está morto, não tem mais como articular nada; a questão agora é só providenciar (uma forma de impedir a presidente) usando os caminhos legais da política”, diz Ribeiro.

Solange, por sua vez, acha que a manutenção do rito agora tornou-se algo “de neutro para bom” em termos de favorecer o impeachment. “Na ocasião, o voto fechado era importante, mas agora o voto aberto pode até ajudar, porque a pressão será para votar contra a Dilma”.

Quanto à formação da lista, ela acha que a separação entre o PMDB governista e não governista se tornou muito tênue: “Quem são os governistas de verdade”? Finalmente, a decisão final pelo Senado em maioria simples agora já não parece um empecilho. Basta dizer que os senadores peemedebistas boicotaram a posse de Lula hoje. Ela lembra também que a delação do senador Delcídio Amaral envolveu mais diretamente Dilma.

Ribeiro entende que a grande missão da classe política agora é restaurar a ordem diante do caos crescente, mas estaria ficando cada vez mais claro que isso exige sacrificar o governo Dilma.

Quanto ao papel de Lula, os dois analistas consideram que ele não terá condições de estancar o impeachment. “Como é que o Lula vai chamar o Meirelles nesse ambiente, o que ele vai ter para conversar com o Renan, com o Temer”?, indaga Ribeiro.

Solange, por sua vez, diz que a discussão sobre qual seria a política econômica com Lula no governo perdeu a importância diante do aumento da probabilidade de impeachment. Havia especulações sobre guinada à esquerda, mas também o “risco positivo” de o ministro Nelson Barbosa ser substituído por Henrique Meirelles, ex-presidente do BC. Agora, para ela, nada disso importa muito.

A economista nota ainda que três partidos já liberaram bancada em relação ao impeachment e que o “PMDB está muito calado”, o que poderia ser uma antecipação do desembarque do governo. Ela ressalva que o principal risco para o cenário de impeachment são novos acontecimentos da Lava-Jato, como vazamentos envolvendo o PMDB e Temer.

Em relação à reação do mercado, a analista acha que é muito mais uma precificação de que qualquer mudança de governo é melhor do que a atual gestão de Dilma do que uma aposta ingênua de que tudo será fácil num eventual novo governo. Ela cita a extensão do prazo das dívidas de Estados e municípios como uma medida da atual administração que agrava ainda mais a crise fiscal. A visão é de que um novo governo pelo menos não iria piorar o que já está tão ruim e não ficaria paralisado como o atual.

Ribeiro acha o cenário pós-impeachment muito incerto, pela gravidade dos problemas econômicos e políticos, mas acrescenta que “um novo governo vai assumir em condições de governabilidade muito maiores do que as da média de Dilma neste segundo mandato”. Ele crê que o PSDB, mesmo que não faça uma adesão formal, pode apoiar e eventualmente fornecer quadros. O analista acrescenta que “os partidos do centrão adesista vão pelo menos dar um apoio na largada”.

Quanto a Lula, se houver impeachment, Ribeiro prevê que, indo para a oposição, o ex-presidente tentará reestruturar o PT usando o discurso de que Dilma sofreu um golpe: “O PT vai sair reaglutinado deste processo, mas será mais minoritário na sociedade e irá mais para a esquerda”, ele diz. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/3/16, quinta-feira.

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