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Mercados estão lenientes com o Brasil?

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, vê consistência no preço dos ativos brasileiros, mas alerta que a situação muda se governo abrir os cofres e equipe econômica sair.

Fernando Dantas

24 Junho 2017 | 19h27

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, discorda dos analistas que veem excesso de complacência do mercado doméstico e internacional em relação ao Brasil. Por outro lado, Kawall vê riscos ao atual cenário, que se mantém relativamente benigno mesmo diante da dificílima situação econômica e da gravíssima crise política que atingem o Brasil.

Resumidamente, sua visão é de que os preços dos ativos brasileiros estão aproximadamente corretos enquanto aqueles riscos não se materializarem de forma mais contundente. Mas há que acompanhar de perto a possibilidade de que isto ocorra.

Em relação aos aspectos do cenário que justificam a reação moderada dos mercados à conjuntura brasileira, Kawall cita inicialmente o ambiente internacional favorável. Ele nota o bom crescimento das principais economias, os preços razoáveis das commodities e a inflação surpreendente baixa, que reduziu a ansiedade em relação a uma alta de juros mais intensa este ano.

O economista observa que, no início do ano, cogitava-se de uma rentabilidade dos títulos do Tesouro americano de dez anos que chegaria a 3%, ou até a 4% em algumas análises, com o suposto reinflacionamento da economia americana por Donald Trump. Hoje, a taxa dos “treasuries” de dez anos está em apenas 2,15% (quando esta coluna foi concluída).

Com a eclosão da crise política sentida nos mercados a partir de 18 de maio, o risco Brasil e o dólar subiram, mas não explosivamente. Kawall cita, como fatores positivos que contiveram uma reação mais drástica, o baixo déficit de transações correntes; os fluxos vigorosos de investimento direto; a perspectiva de reabertura do mercado de capitais para ofertas iniciais de ações (IPOs), o que inclusive é benéfico para a planejada venda de ativos pelo governo, como o IRB e leilões nos setores de petróleo e energia elétrica; e a grande redução do estoque de swaps cambiais, que deixa o BC em melhor posição para intervenções que mitiguem a volatilidade.

“Até onde eu apreendo, o apetite pelo Brasil continua favorável”, ele diz.

Entretanto, para Kawall, o fator mais importante de sustentação dos ativos brasileiros é o cenário prospectivo de queda dos juros domésticos. Para ele, esta é uma grande diferença entre o momento atual e o pânico no segundo semestre de 2015. Naquela ocasião, a resistência da inflação ainda era um grande problema e, com a Selic subindo em julho para chegar ao pico recente de 14,25% e o câmbio disparando até ultrapassar R$ 4 na virada de 2015 para 2016, criou-se o temor da dominância fiscal e de que o arcabouço macroeconômico fosse pelos ares.

Agora, como nota o economista do Safra, a inflação está desabando com força e a discussão é sobre o quanto a Selic vai cair – mesmo que não chegue aos níveis projetados antes de 18 de maio, com certeza a taxa básica mantém-se em vigorosa trajetória de queda.

O economista chama a atenção para uma comparação impressionante: com a prevista deflação em junho, o IPCA no primeiro semestre de 2017 pode ficar igual o inferior ao indicador de apenas janeiro de 2016, que foi de 1,27%. Aliás, pelo outro lado, Kawall está muito pouco entusiasmado quanto ao vigor da prevista retomada da economia até o fim do ano.

Em termos políticos, ele considera que o governo Temer provavelmente perdeu a capacidade de aprovar medidas no Congresso por maiorias de três quintos, como as emendas constitucionais, o que significa que a reforma da Previdência não deve passar, nem em versão mais branda, na sua avaliação.

Porém, para o analista, o governo retém a capacidade de comandar vitórias por maioria simples no Congresso, o que inclui uma pauta relevante de Medidas Provisórias e é decisivo para mudanças importantes como as reonerações tributárias e a criação da TLP.

“Não vejo a paralisia política total do final do governo de Dilma, em que havia inclusive a pauta bomba e aberta hostilidade do Congresso ao Executivo”, avalia Kawall. Para ele, “a reforma da Previdência de fato virou um sonho de uma noite de verão, mas isto não significa que o governo e o Congresso não estejam mais trabalhando – eu entendo que a agenda que está dentro do guarda-chuva da maioria simples vai avançar”.

Equipe econômica

É quando menciona a equipe econômica de alta qualidade do governo Temer, a seu ver o grande trunfo que ancora e potencializa muitos dos aspectos positivos do cenário atual, que o economista do Safra revela também o seu maior temor quanto a uma possível deterioração.

O risco seria de que, no afã de atender a grupos de pressão para se sustentar no poder, o presidente em algum momento rompesse de forma mais cabal o seu compromisso com a austeridade e fizesse concessões em demasia. Essa possibilidade poderia criar uma situação insustentável para a atual equipe econômica, que poderia resultar numa debandada parcial ou total na hora em que, nas palavras do economista, “o contrato com a equipe econômica seja rompido, no sentido de que eles entraram lá para fazer alguma coisa que já não é mais possível fazer”.

Kawall vê a saída de Maria Silvia Bastos Marques do BNDES como uma manifestação pontual desse risco, mas que ainda não significa uma ruptura. Ele enxerga com grande preocupação as pressões de lobbies empresariais sobre o BNDES, e vê como importante a permanência em seus atuais postos de membros da diretoria trazidos por Maria Silvia.

Da mesma forma, pressões contra a agenda de reoneração e de criação da TLP devem ser acompanhadas com lupa, diz o economista do Safra, para se avaliar até que ponto “os fiadores de toda a aparente tranquilidade que temos (isto é, a equipe econômica) terão condições de continuar a fazer o seu trabalho e permanecer no governo”.

Se essa continuidade for possível, Kawall vê medidas importantes da agenda por maioria simples sendo aprovada nos próximos três a quatro meses. A partir daí, entra-se na dinâmica da eleição de 2018, e o humor do mercado e as condições da economia dependerão das chances eleitorais de candidatos que sinalizem a manutenção da agenda reformista – Kawall acredita que este é um cenário possível.

Assim, ele não vê hoje “leniência” do mercado em relação ao Brasil, mas sim uma atitude relativamente serena e cautelosa diante de riscos reais, mas que ainda não se tornaram realidades.

“Se um ou mais desses pilares que eu mencionei desabarem, aí sim nós poderíamos viver de novo um cenário mais parecido com aquele de 2015”, conclui o economista. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta entrevista foi publicada pelo Broadcast em 24/6/17.