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O ajuste agora é forçado

Respeitado gestor, que preferiu falar em off, acha que "esfarelamento" da política fiscal remove as bases para um ajuste controlado da economia brasileira, que seria menos doloroso. Dólar, para ele, pode ir além do intervalo de R$ 3,8 a R$ 3,9.

Fernando Dantas

01 Setembro 2015 | 11h09

Um respeitado e conhecido gestor interpreta este momento crítico da economia brasileira como o início de um ajuste forçado pelo mercado, que será mais longo e profundo do que um ajuste que fosse comandado pelo governo.

“Se o ajuste fiscal e de conta corrente se desse de forma organizada, o processo seria menos doloroso e menos dramático – infelizmente, parece que esta possibilidade está cada vez menor”, ele diz. No novo cenário, o gestor não descarta que o câmbio tenha um overshooting acima da faixa de R$ 3,8 a R$ 3,9, que ele vê como a que traria equilíbrio na conjuntura mais deteriorada.

Ao longo do ano eleitoral, e mesmo antes, muito se discutiu sobre como seria o ano de 2015, para o qual a maior corrente de analistas previa um processo difícil de ajustamento dos excessos dos anos de euforia da era Lula e dos graves erros de política econômica cometidos pelo ex-presidente e, principalmente, por Dilma Rousseff, com sua nova matriz econômica.

Uma das questões centrais daquele debate era se o governo tomaria a iniciativa de provocar o ajuste, o que supunha a adoção de uma política econômica ortodoxa, ou se, em seu segundo mandato, Dilma faria “mais do mesmo” ou “tocaria com a barriga” – isto é, a política econômica tentaria continuar a adiar o momento da verdade, e não representaria uma ruptura tão forte com a orientação do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Quando de forma surpreendente a presidente escolheu Joaquim Levy para o ministério da Fazenda, os mercados celebraram, já que ficou claro que a escolha tinha sido pelo ajuste induzido, e não pelo “mais do mesmo”. Analistas e investidores deram o benefício da dúvida para o novo comandante da economia, baseados na sua impecável formação técnica e na sua reputação de falcão fiscal.

Como costuma acontecer, porém, o mercado subestimou o fator político. A ideia de que basta ter o tecnocrata adequado no cargo mais importante é uma ilusão, porque os problemas da economia brasileira transcendem muito a esfera de decisão unilateral da Fazenda, do Banco Central e mesmo do Palácio do Planalto. Sem o firme engajamento do Congresso, o que exige condições de liderança para o Executivo, é quase impossível enfrentar a dura agenda do ajuste.

A campanha eleitoral virulenta do PT e o enorme estelionato eleitoral praticado com a adoção da política econômica ortodoxa envenenaram o ambiente político e tornaram ainda mais difícil a governabilidade e a condução do ajustamento da economia brasileira.

Segundo o gestor, um dólar a R$ 3,5 seria o suficiente para um ajuste administrado da economia brasileira, conduzindo o País para um déficit em conta corrente ligeiramente abaixo de 3% do PIB em 2016.

“O problema é que esse cenário assume que existe financiamento, o que pode não ser o caso, já que o ancoramento básico da economia, que tem que ser fiscal, está se esfarelando”, observa.

Ele nota que Levy entrou prometendo fazer um superávit primário de 1,1% do PIB em 2015, de 2% em 2016, e mantê-lo em 2% daí em diante. “Agora a expectativa é de déficit em 2015 e 2016, e não se tem a mínima ideia do que virá em 2017 e 2018 – os preços têm que ajustar a essa nova realidade, o risco tem que subir, a probabilidade de o País perder o grau de investimento ficou altíssima”, complementa.

Ele acha que, no novo cenário, de ajuste forçado, talvez o Brasil tenha que caminhar para um déficit em conta corrente de 1% do PIB ou mesmo zerado em 2016. O gestor acredita que um dólar a R$ 3,8 ou R$ 3,9 talvez fosse suficiente para esse ajuste, mas lembra que não é assim que as coisas funcionam nos mercados: “É muito possível que haja overshooting acima dos valores que dão o equilíbrio na nova situação”, observa.

Para ele, o problema principal não é a trajetória dos déficits fiscal e externo, mas a disfuncionalidade do governo, que está impotente para lidar com o agravamento da situação. O mercado, os investidores e provavelmente as agências de rating percebem a deterioração política e seu impacto na dinâmica econômica. A forte queda do investimento há muitos trimestres consecutivos ilustra bem a intensidade da perda de confiança.

O gestor nota, finalmente, que, na última reunião do Copom, o BC acabou subindo 0,5 ponto porcentual a Selic depois de ter emitido muitos sinais de que seria 0,25, e a decisão veio na esteira de um fato novo no front fiscal, a redução das metas de superávit primário. Agora, na semana de mais um Copom, há também um fato fiscal novo, o Orçamento com previsão de déficit em 2016. “Não é nada provável, mas eu diria que tampouco é 100% impossível que o BC surpreenda de novo e mude em relação à sua sinalização, subindo a Selic esta semana”, ele conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em 31/8/15, segunda-feira, pela AE-News/Broadcast;