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O balé de Temer e Maia

Presidentes da República e da Câmara têm interesses que podem ser alinhados em favor da reforma da Previdência e de outras medidas econômicas importantes. Resta ver se, com toda sua habilidade na política de bastidores, os dois estão à altura desse desafio.

Fernando Dantas

09 Agosto 2017 | 11h09

O analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria MCM, observa que, no balé da reforma da Previdência, o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estão dançando conforme a música que convém a cada um.

Dessa forma, Temer fala na “reformulação previdenciária” que é preciso fazer de tempos em tempos, deixando a porta entreaberta para um enxugamento em relação ao projeto que saiu da comissão especial.

Segundo Ribeiro, “Temer quer criar expectativa baixa para, se passar alguma coisa, o mínimo que seja, poder cantar vitória”.

Já Maia, ao contrário, tem insistido que se deve votar a reforma tal como ela está. Para o analista, não faz sentido que um político tarimbado como o deputado pelo Rio de Janeiro ignore que novas concessões terão que ser feitas para se aprovar mudanças na Previdência.

Na visão de Ribeiro, Maia – num movimento que o próprio claramente incentivou – tornou-se na prática o grande articulador da reforma da Previdência. Sua postura é típica de um negociador no início de uma difícil transação, evitando ceder muito rápido para garantir que ao final tenha que fazer o mínimo de concessões mínimas para garantir seu objetivo.

Assim, um jogo complexo será encenado nas próximas semanas e meses, em relação a uma pauta legislativa extremamente carregada e ambiciosa – mas que paradoxalmente tem rara chance de ser bem-sucedida no lusco-fusco de um governo impopular como o de Temer.

E a razão é justamente a de que o presidente é um “caretaker”, mais preocupado em se livrar do cerco legal da Lava-Jato e fazer avançar reformas que lhe garantam um rodapé positivo nos livros de história do que em galvanizar a população para apoiar este ou aquele projeto político.

Com a habilidade de Temer nas negociações de bastidores no Congresso, a que se pode somar a competência de Maia na mesma especialidade, há alguma chance de passar mudanças constitucionais impopulares no Congresso, mas não muita.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, nota que uma dificuldade adicional é a pauta carregada, em que se acotovelam duas reformas fundamentais e há muito discutidas – previdenciária e política.

A reforma política tem que ser aprovada até setembro para valer para 2018, e, por se tratar de natural prioridade dos congressistas, é candidata mais forte a ter precedência. Por outro lado, a reforma da Previdência está pronta para ir para o primeiro voto na Câmara, e, em tese, até o fim do ano haveria tempo – apertado, claro – para concluir todos os trâmites. Ninguém por enquanto parece esperar que em 2018, ano eleitoral, possa haver qualquer avanço da pauta reformista.

Para Cortez, o governo e os políticos do Congresso deveriam desenvolver “a arte de separar as duas questões, a luta do presidente pelo mandato e a agenda reformista”. Nessa perspectiva, ele não vê muito sentido em que Temer tenha uma atitude muito punitiva em relação ao PSDB, que deu praticamente metade dos seus votos na Câmara para que o presidente fosse julgado pelo Supremo.

É claro que a demanda punitiva emana do Centrão e de parlamentares em geral que votaram a favor do presidente na quarta-feira (2/8/17) da semana passada, e que ambicionam cargos e verbas que ainda estão em mãos dissidentes. Temer terá que administrar com perícia esses melindres, e naturalmente vai ter que encontrar “agrados” adicionais aos fiéis que não necessariamente signifiquem punição aos filhos pródigos.

O aspecto mais consistente do ceticismo em relação à capacidade de Temer de aprovar reformas até o fim do seu governo deriva justamente da percepção de que, com a perda de capital político, a relação custo-benefício de angariar votos para medidas impopulares tornou-se desfavorável demais.

Por outro lado, há interesses que em tese poderiam ser alinhados em favor da reforma da Previdência e de outras medidas economicamente relevantes.

Temer e seu grupo político desviam o foco da Lava-Jato e tentam se mostrar úteis para a elite econômica e os formadores de opinião, o que sempre ajuda quem busca sobrevivência política e jurídica. Maia se cacifa como líder político reformista de dimensão nacional. O PSDB contribui para, com avanços nas reformas, melhorar a economia em 2018, diminuindo a munição dos seus eternos oponentes populistas.

Uma recuperação mais consistente no próximo ano também pode tornar menos negativa a imagem de Temer. Esta perspectiva, por sua vez, criaria incentivos para a manutenção do apoio pelo Centrão. Tanto em termos de identidade ideológica como na distribuição de cargos, verbas e responsabilidades no governo de acordo com o peso de cada um no Congresso, o Centrão aprendeu recentemente que a companhia da centro-direita é bem mais agradável do que a aposta arriscada no PT e na esquerda.

Enfim, há interesses que poderiam ser orquestrados e arregimentados para que algumas mudanças na Previdência e outras reformas relevantes sejam aprovadas ainda no mandato do atual presidente. Mas é preciso visão de longo prazo e extrema habilidade política. Resta ver se Temer, Maia e outras lideranças envolvidas nesse jogo estão à altura do desafio. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/7/17, terça-feira.