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O botijão e a inflação

IPCA de setembro é o primeiro depois de bastante tempo que foi uma surpresa para cima (ainda que num nível bem baixo, de 0,16%). Mas, por enquanto, não há motivos para se preocupar com a inflação.

Fernando Dantas

10 Outubro 2017 | 23h17

Uma surpresa quanto à inflação do gás de botijão, um preço regulado, pode explicar parte significativa da discrepância entre a mediana das previsões sobre o IPCA de setembro (de 0,09%, na coleta da Agência Estado) e o resultado efetivo de 0,16%.

Segundo André Braz, coordenador do IPC da FGV-Ibre, há um mês foi divulgado um aumento de 12,2% em média do preço do botijão de até 13 kg nas distribuidoras. A partir da sua coleta própria, entretanto, a FGV-Ibre previu alta de apenas 1,8% do botijão no IPCA de setembro, quando na realidade o índice subiu 4,8%. Braz diz que um fator que poderia explicar a diferença é a área geográfica de coleta – a do IBGE para o IPCA é mais ampla.

De qualquer forma, essa diferença significou uma contribuição de 0,04 ponto porcentual (pp) para o IPCA de setembro. Assim, se a projeção da FGV para a alta do gás de botijão em setembro tivesse sido acertada – isto é, tivesse sido de alta de 4,8% –, o IPCA cheio projetado pela instituição teria sido de 0,12%, e não de 0,8%. Seria mais próximo, portanto, do resultado oficial de 0,16%.

Se o 0,04 pp da surpresa com o gás de botijão fosse somado à mediana do mercado para o IPCA de setembro, de 0,9% (e é provável que este item também tenha surpreendido outras instituições), se chegaria a 0,13%.

Evidentemente, houve outras diferenças, para cima e para baixo, entre o resultado do IBGE e as projeções do mercado, consultorias e instituições de pesquisa. A FGV, por exemplo, esperava uma deflação de 0,54% do item alimentação e bebidas, que recuou 0,41%. Aí se tem a explicação para uma diferença adicional de 0,04 pp entre o IPCA fechado e aquele previsto pela instituição de pesquisa. Assim, a alimentação e o botijão de gás explicariam toda a diferença de 0,08 pp entre a previsão da FGV e o resultado.

O importante, evidentemente, é que o resultado do IPCA de setembro, no topo do intervalo de projeções do mercado, não parece acender, por enquanto, qualquer luz amarela da inflação de demanda (o que não seria mesmo de se esperar numa economia ainda tão deprimida como a brasileira).

A chamada inflação subjacente dos serviços – um indicador idealizado pelo próprio Banco Central e que elimina da medida os grupos de preços turismo, serviços domésticos, cursos e comunicação – foi de 0,25% no IPCA de setembro, comparada a 0,42% no índice do mesmo mês de 2016.

Alexandre Bassoli, economista-chefe da área de gestão de recursos do grupo Opportunity, diz que “não vimos nada no IPCA de setembro que indicasse mudança de curso ou alteração qualitativa da inflação – nós estamos vindo de uma sequência muita longa de meses em que houve surpresas persistentemente para baixo, e sabemos que dados econômicos não podem ser sempre assim, que as surpresas variam”.

Bassoli acrescenta que a inflação de serviços continua recuando, e há espaço para o prosseguimento desta tendência, em função da ociosidade no mercado de trabalho e da desaceleração dos salários nominais. Outros fatores que devem ajudar a inflação a ficar baixa em 2018, segundo o economista, são o salário mínimo, que deve crescer só algo perto de 2% (acompanhando a variação do INPC); uma redução da inflação da educação, que ainda está alta; e o efeito combinado do IGP-M (que está com deflação) e da vacância nos aluguéis.

A normalização da tendência de preços dos alimentos, depois do forte surto deflacionário que ainda não acabou, é uma das razões prevista para que a inflação suba um pouco no ano que vem. Assim, o Opportunity tem projeção de IPCA de 2,8% em 2017 e de 3,5% em 2018, e vê o ciclo de redução da Selic terminando em 6,5%. A previsão de crescimento do PIB é de 0,8% para este ano e de 3% para o próximo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/10/17, sexta-feira.