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O “elo perdido” do mercado

Como explicar por que, apesar de um problema fiscal cada vez mais sério e nenhuma solução à vista, o mercado financeiro esteja num momento de quase euforia como se tudo fosse dar certo para a economia brasileira? Esta é a versão mais longa, que saiu no Broadcast, de artigo meu que saiu no Estadão em 12/11/17, terça-feira.

Fernando Dantas

13 Setembro 2017 | 20h24

Não adianta. Quanto mais os economistas que fazem cenários alertam para a complacência dos mercados em relação ao Brasil, mais a bolsa sobe, o real se valoriza e os juros caem. O contraste entre o que os analistas falam e o que os “traders” operam se torna cada vez mais gritante.

É verdade que os economistas de forma geral enfatizam os fatores positivos de curto prazo – e talvez até de médio – que dão ânimo aos ativos brasileiros: a condução vitoriosa da política monetária desde meados do ano passado, o desempenho muito bom do setor externo brasileiro e um cenário internacional dos sonhos, com recuperação sincronizada das principais economias e nenhum traço de inflação.

Por outro lado, é praticamente impossível encontrar um analista que não mencione a grande inconsistência macroeconômica brasileira, que pode se manifestar nocivamente no médio ou longo prazo: uma situação fiscal que só fez piorar desde que Dilma Rousseff iniciou o seu segundo mandato (na verdade, já estava se deteriorando antes, mas a ficha caiu de forma ampla, geral e irrestrita em 2015).

A teoria econômica em relação ao funcionamento dos mercados indica que os agentes tendem a antecipar eventos futuros, ainda mais se visíveis e muito prováveis.


Quando os economistas mencionam o “gap” de cinco pontos porcentuais do PIB de resultado primário que é necessário recompor para colocar o setor público novamente numa trajetória solvente; quando economistas e cientistas políticos apontam para a imprevisibilidade das eleições em 2018, da qual nada impede que saia vencedor um populista; e quando o único avanço concreto para reduzir o rombo fiscal estrutural na agenda do governo Temer, a reforma da Previdência, parece ter se tornado uma probabilidade remota; quando, enfim, colocam-se na equação todos esses fatores, o que deveria ser antecipado é uma elevada chance de que uma ruptura – uma queda no abismo fiscal – esteja a caminho.

Como absolutamente nada disso está nos preços do mercado, é inevitável pensar sobre quem, se os economistas ou os operadores, está errado. A forma mais convencional e conservadora de abordar essa questão é fechar com os economistas. Afinal, há uma penca de pechas sobre o mercado que pode explicar desvios dos fundamentos: comportamento de manada, o jogo de cadeiras pelo qual todos tentam estar entre os últimos a sair de uma bolha para ganhar o máximo antes que tudo desabe, a exuberância irracional, etc.

Mas é inevitável também especular sobre se não há fatores operando de forma menos evidente, que não são captados pelos modelos e pela racionalidade dos economistas, mas podem estar sendo “farejados” pela intuição dos “traders”.

Com certeza, se algo desse tipo estiver ocorrendo, será mais de natureza política do que econômica. Porque, por mais que os cientistas e analistas políticos se esforcem, e representantes do mercado financeiro percorram os corredores do Congresso tentando entender o processo legislativo, ainda não surgiu nada que dê uma indicação segura sobre, por exemplo, se e quando uma reforma da Previdência será aprovada. E muito menos ainda sobre o teor, mais rígido ou mais aguado, dessa reforma (embora cientistas políticos como Carlos Pereira e Marcus Melo venham batendo na tecla que um governo com boa representação da base partidária no ministério e outros cargos chave e próximo à ideologia mediana do Congresso, como o de Temer, está fadado a ter mais sucesso na aprovação de matérias legislativas).

De qualquer forma, o desafio do Brasil daqui em diante é fazer um monumental esforço fiscal, que a curta experiência da redemocratização indica ser repelente ao eleitorado e quase impossível politicamente: cortar benefícios de forma maciça e aumentar impostos. Apenas o sucesso nessa tarefa nos próximos anos justificaria os atuais preços de mercado.

O que poderia dar certo surpreendentemente? Talvez um fator pouco apreciado seja a falência ética e política da esquerda populista. Como Lula, pela potência do seu carisma pessoal, se mantém um candidato competitivo, especialmente pela sua popularidade nos grotões, há uma tendência de subestimar a intensidade da implosão da visão de mundo estatista e para a qual não existe restrição orçamentária.

Os monumentais escândalos e o desastre econômico que fecharam a era petista no governo, e que até ofuscam aspectos positivos da gestão do partido, são talvez um fenômeno potente o suficiente para engendrar mudanças mais profundas na mentalidade coletiva. O nacional-desenvolvimentismo populista que, desde o início deste último período democrático, esteve presente como projeto – alternativo, quando na oposição, e oficial, quando no poder – preferencial de grande parte da elite intelectual brasileira ruiu de forma quase cinematográfica diante dos olhos da nação.

A possibilidade é de que a poderosa resistência às reformas estruturais baseada na comunhão de forças entre o corporativismo e o populismo tenha sido parcialmente rompida pelo colapso deste último. Um sintoma seria a forma surpreendente pela qual um governo impopular e de legitimidade contestada, como o de Temer, tratorou o Congresso para aprovar o teto constitucional de gastos, a reforma trabalhista e caminhava para aprovar pelo menos alguma reforma da Previdência antes de ser torpedeado pela gravação de Joesley.

A intuição de que reformar o Brasil daqui para a frente talvez seja menos difícil do que sugere o passado do País desde a redemocratização pode ser o “elo perdido” na trajetória dos preços do mercado. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/9/17, segunda-feira.