As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O fator China

Economia chinesa compõe quadro internacional favorável ao Brasil, mas ainda se debate se o gigante asiático pode vir a sofrer solavancos no seu processo de transição de modelo econômico.

Fernando Dantas

17 Agosto 2017 | 12h51

O ambiente externo extremamente favorável ao Brasil, que vem dilatando o prazo para que o País se ajuste, está baseado num conjunto de fatores: normalização monetária vagarosa e serena nos Estados Unidos; recuperação da Europa e do Japão; e uma transição de modelo com “pouso suave” na China.

Este último fator vem despertando algumas dúvidas. Dois artigos recentes de dois economistas de renome internacional, com visões contrárias, ilustram bem o atual debate sobre a China.

Barry Eichengreen, a propósito de comentar os 20 anos desde a crise asiática, escreve que “a China agora está no mesmo ponto que seus vizinhos do Sudeste asiáticos há 20 anos – ela já não se adapta mais ao seu modelo histórico de crescimento”.

O argumento do economista é de que na economia chinesa, como na da Tailândia, Coreia do Sul e de outros países asiáticos no final dos anos 90, “a força bruta do investimento” já não é suficiente para manter altas taxas de crescimento. O problema é que o governo chinês ainda trabalha com metas de crescimento, e provê a liquidez que for necessária para “manter o motor econômico roncando”.


Na visão de Eichengreen, as estatais chinesas já acumularam níveis perigosos de dívida externa, e o arranjo cambial, que ainda é razoavelmente controlado, não desestimula a acumulação destas dívidas. Ele conclui o seu artigo escrevendo que “nós esperarmos que os líderes chineses tenham estudado a crise asiática, senão estão condenados a repeti-la”.

A abordagem de Stephen Roach, de Yale e ex-economista-chefe do Morgan Stanley na Ásia, não poderia ser mais diferente. Ele lembra que, desde a crise asiática, já havia previsões de que a China “seria a próxima” a ser tragada, e, passados 20 anos, isto ainda não aconteceu.

Roach concorda que a dívida das empresas não financeiras como proporção do PIB, de 157% no final de 2016, concentrada nas estatais, é um problema que tem que ser enfrentado, assim como o mercado imobiliário aquecido. Essa dupla dificuldade faz com que alguns analistas tracem outro paralelo em relação à China atual (além do que é feito com o Leste Asiático), relativo à crise japonesa da virada da década de 80 para a de 90.

Mas Roach considera que tanto a dívida corporativa quanto o mercado residencial são administráveis. Ele nota que a poupança chinesa, de 45% do PIB, é muito maior que a japonesa, de 28%, e, enquanto a dívida bruta do Japão é de 239% do PIB, a dívida soberana da China é de 49%. Quanto ao mercado imobiliário, o economista considera que, se a oferta for bem gerida, a demanda de uma população que ainda se urbaniza à taxa de 1% a 2% por ano garantirá um equilíbrio saudável.

Uma questão fundamental na trajetória chinesa, abordada por Roach, é a transição do modelo de investimento e exportação para o de crescimento puxado pelo consumo e serviços. Ele é otimista quanto a esse processo.

Livio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, concorda de maneira geral com Roach, descartando a priori a comparação com a crise asiática, já que a conta capital chinesa ainda é muito mais fechada do que a dos países afetados no final da década de 90. Ribeiro vê a “japanização” como um paralelo mais pertinente, mas ainda assim equivocado – ele, como Roach, também chama a atenção para os 45% de poupança doméstica chinesa, “que permitem maiores desaforos”.

Para Ribeiro, um erro comum aos analistas pessimistas com a China é julgar que as autoridades econômicas do País deixarão a transição de modelo e a consequente liberalização financeira ocorrer num ritmo demasiado rápido, que saia do controle. “Eles sabem que não podem desmontar muito rápido e não o farão”, diz o economista.

Como Roach, ele vê a transição de modelo como um processo que já caminhou bastante, e que já faz da China hoje uma economia de serviços.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, considera que o problema do endividamento corporativo da China é administrável e, apesar do alto custo de um saneamento completo das empresas e bancos envolvidos (calculado em 7% do PIB em trabalho do FMI publicado há cerca de um ano), está dentro das possibilidades de um país com a poupança pública e doméstica da dimensão da chinesa.

Ainda assim, Borges preocupa-se com a capacidade de o governo chinês lidar com o problema. “Eles sabem que têm que desinflar essa bolha, mas a grande questão é se vão conseguir fazê-lo de forma ordenada ou não”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 15/8/17, terça-feira.