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O hiato e a inflação

quarta-feira 02/07/14

O Relatório de Inflação divulgado hoje (esta coluna foi publicada em 26/6/14) reforçou a ideia de que o Banco Central planeja deixar a Selic no nível atual de 11% por um período razoavelmente longo. A ideia seria que os efeitos já ocorridos e aqueles ainda a ocorrer da elevação de 3,75 ponto porcentual da Selic […]

O Relatório de Inflação divulgado hoje (esta coluna foi publicada em 26/6/14) reforçou a ideia de que o Banco Central planeja deixar a Selic no nível atual de 11% por um período razoavelmente longo. A ideia seria que os efeitos já ocorridos e aqueles ainda a ocorrer da elevação de 3,75 ponto porcentual da Selic desde abril do ano passado devem levar a inflação a retomar a trajetória de convergência para o centro da meta em 2016.

Até lá, o IPCA acumulado em 12 meses permanecerá alto, mais próximo do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas (ou mesmo o ultrapassará eventualmente), de 6,5%. Isto, porém, na visão do BC, deve-se ao processo de reajuste de preços relativos, entre administrados e livres, de um lado, e externos e internos, do outro. O Copom permanece vigilante quanto aos efeitos secundários deste ajuste, mas tende a acomodar o impacto primário.

Segundo Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências, “o discurso do BC no relatório reforçou que a alta de 375 (pontos básicos) vai chegar na inflação, o que pode ser magnificado pelos baixos índices de confiança”. Para ela, mesmo com a alta das projeções de inflação para 2014 e 2015 no Relatório, o Banco Central “demonstrou conforto com um processo de convergência mais longa, mantendo as atuais condições monetária”.

Para Tomás Brisola, economista-chefe do banco BBM, o pano de fundo do debate sobre política monetária atual (não só entre o BC e o mercado, mas no interior do próprio mercado) é a questão do hiato do produto – isto é, se a economia está absorvendo fatores de produção num nível que pressione a inflação para cima, para baixo ou que seja neutro.

Para ele, a base da mensagem do Relatório é que o hiato já está em território desinflacionário. De fato, a economia brasileira arrasta-se. Há previsões, como a da MB Associados, de que o PIB crescerá apenas 0,9%. Sergio Vale, economista-chefe da MB, vê inclusive algum risco de recessão técnica no primeiro semestre, com queda no segundo trimestre e eventual revisão para um número negativo do resultado do primeiro trimestre.

Brisola frisa que a questão do hiato tem aspectos muito técnicos, ligados à metodologia de cálculo. Assim, o comportamento letárgico da economia pode levar à conclusão de que a política monetária já esteja combatendo a inflação e que prosseguirá produzindo o mesmo efeito.

O economista do BBM discorda. Ele nota ser teoricamente possível inclusive que uma economia já esteja crescendo abaixo do potencial mas sem que a redução do nível de utilização dos recursos tenha sido ainda suficiente para ter impacto desinflacionário.

“Quando o desemprego permaneceu em 5,5% por alguns meses no ano passado já havia a noção de pleno emprego e de pressão na inflação; depois, ele ainda foi a 5%, e, se voltar agora para 5,5%, não se pode dizer que seja um nível desinflacionário, mas apenas que é um nível menos inflacionário”, analisa Brisola. O economista acha que a taxa de desemprego teria de ir para um nível próximo de 6,5% para fazer a inflação cair.

Tanto Brisola como Alessandra, da Tendências, acham que o risco inflacionário é maior do que o diagnosticado pelo mercado. Isto levaria o Copom em algum momento futuro a rever sua postura e retomar o aperto monetário. “Porém, supondo que o BC estivesse certo no Relatório, a sinalização é de manter a Selic neste nível a perder de vista e, quando houvesse um novo movimento, ele seria de baixa”, acrescenta Brisola.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)