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O peso das palavras

Com a piora do cenário externo, o que os candidatos e seus auxiliares falam sobre política econômica passa a ter influência crescente nos mercados e na economia neste ano eleitoral, para o bem e para o mal.

Fernando Dantas

09 Maio 2018 | 19h10

Um conhecido e respeitado gestor vê o cenário internacional piorando bastante para países emergentes como o Brasil nos próximos seis a 12 meses.

“A liquidez injetada pelos principais bancos centrais nos últimos sete a oito anos, de magnitude gigantesca, começou a ser removida”, ele diz.

Nas últimas semanas, na visão deste analista, houve uma certa surpresa com impactos que eram esperados mais para o segundo semestre. A ideia de que o ajuste das condições monetárias globais ia ser tão gradual que geraria muito pouco impacto nos ativos de risco, como os dos emergentes, foi posta em xeque.

Nos Estados Unidos, o processo de normalização monetária está em pleno curso, ainda que as taxas de mercado estejam sujeitas às oscilações típicas. O juro balizador do título de dez anos do Tesouro americano hoje era cotado a 2,95%, depois de ter superado 3% há poucos dias – o importante, porém, é que ele está próximo de 3%, um nível bem mais normal do que o exibido de maneira geral nos últimos anos.

Na Europa, num processo também pautado pelas oscilações dos indicadores de atividade, o roteiro à vista hoje é o da redução das injeções de liquidez até a parada total em setembro, com uma primeira subida dos juros básicos do euro prevista para o segundo trimestre de 2019.

Esse cenário global, que está levando a um movimento de alta do dólar ante muitas moedas, já provoca agitação no mundo emergente. A Argentina, um país particularmente frágil pela combinação de elevados déficits fiscal e externo com alta inflação, está sendo duramente testada.

O Brasil, por outro lado, parte de uma posição muito sólida em termos de balanço de pagamento, e certamente tem capacidade de resistir a ondulações bem mais violentas do que as que já estão balançando perigosamente a Argentina.

O grande problema, porém, é que no Brasil há uma eleição no meio do caminho. Como diz o gestor mencionado acima, “o balanço de pagamentos é sólido, mas isto adianta pouco se todo mundo resolver tirar dinheiro do País ou arrumar hedge cambial”.

No caso de a campanha presidencial indicar como elevadas as chances de candidatos que são vistos com desconfiança pelo mercado, as chances de movimentos daquele tipo não são nada desprezíveis, acrescenta o analista.

“A pergunta básica é: no dia seguinte ao final da eleição, o mercado dará o benefício da dúvida para quem for eleito?”, ele resume.

Se der, o balanço de pagamentos robusto, somado ao capital político de um novo governo para resolver o problema fiscal, pode garantir um ajuste suave da economia brasileira a condições internacionais menos complacentes. Se não der, é bom apertar os cintos e se preparar para a turbulência. Como o mercado antecipa as consequências dos fatos, o eventual aumento, durante a campanha, das chances de eleição de candidatos que podem não obter o “benefício da dúvida” pode fazer as trepidações começarem bem antes do resultado final da eleição.

Mas por que, afinal, um candidato não mereceria o benefício da dúvida? A resposta está “blowing in the wind”, com economistas e políticos ligados a candidaturas importantes dando declarações que significam ipsis litteris trazer de volta a desastrada nova matriz econômica, que quase arrebentou de vez a estabilidade macroeconômica duramente conquistada nos anos 90 e início da década passada. Com o ambiente externo piorando, cada desfaçatez declarada por candidatos ou suas equipes vai pesar mais. A conta, como sempre, cairá nas costas do País, especialmente dos mais pobres. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta matéria foi publicada pelo Broadcast em 4/5/18, sexta-feira.