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O PIB, a política e 2018

Mais do que a dramática queda de 3,6% do PIB em 2016, ou do que a perspectiva de um número muito baixo em 2017 (por causa do chamado "carregamento estatístico" negativo), o que importa é o ritmo da retomada daqui em diante - e quanto a economia estará crescendo na temporada eleitoral de 2018.

Fernando Dantas

08 Março 2017 | 19h11

O recuo do PIB no quarto trimestre, ainda que um pouco abaixo da mediana de mercado, já representava favas contadas mesmo antes da sua divulgação.

A queda de 0,9% na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior representa uma aceleração ante a contração de 0,7% do terceiro trimestre, e deve aumentar o carrego estatístico negativo em relação ao previsto por várias casas. Isto pode provocar revisões do PIB de 2017 para baixo, trazendo a mediana para algum ponto mais próximo de zero.

Nada disso, entretanto, importa muito para as questões que verdadeiramente estão em jogo, do ponto de vista do mercado e dos analistas em geral.

A primeira delas, para qual o sentimento é majoritariamente positivo, é se de fato o PIB está se estabilizando neste primeiro trimestre de 2017, e se, a partir daí, a economia brasileira vai iniciar a tão protelada retomada e crescer, ainda que em ritmo lento, durante o resto do ano e em 2018.


Os índices de confiança continuam martelando uma resposta positiva para a indagação acima. Amanhã (quarta-feira, 7/3), será divulgada a produção industrial de janeiro. As previsões estão bastante dispersas, mas mais da metade das projeções do Broadcast está em torno de zero, no intervalo entre -0,5% e +0,5%. O resultado será mais um elemento para consolidar ou não o diagnóstico de estabilização (o indicador, divulgado após a publicação deste artigo, ficou em -0,1%). O crescimento da produção de veículos em 39% na comparação de fevereiro de 2017 com o mesmo mês de 2016, divulgado hoje pela Anfavea, com o resultado indo para 200,4 mil, é um sinal bom e forte, que causou surpresa.

Se, portanto, a economia de fato está se estabilizando no presente trimestre e passará a crescer, a segunda grande interrogação é sobre qual ritmo na margem o PIB atingirá no final de 2017 e, principalmente, quanto vai crescer em 2018 – especialmente no terceiro trimestre, quando será realizada a eleição presidencial.

Para esta segunda questão, as interações entre economia e política daqui para a frente serão vitais. Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, espera que o investimento puxe o crescimento em 2018, por causa da queda tradicionalmente lenta e defasada da taxa de desemprego.

“Mas para que isso aconteça, o governo tem que prosseguir rapidamente com as reformas para que taxa de juro real caia, estimulando o investimento”, diz a economista.

Esse cenário, por outro lado, depende – na visão de Solange – de que o risco político seja percebido como baixo no Brasil, o que não é algo fácil de ocorrer à medida que se aproxima uma eleição presidencial que pode vir a ser bastante imprevisível.

“O risco no Brasil é que venha um novo governo que faça o contrário da agenda liberal e reformista atual, e esta deve ser uma eleição sem uma boa visibilidade (dos resultados) a partir do início da disputa”, acrescenta a economista.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, vê a possibilidade de criação de círculos virtuoso ou vicioso entre política e economia, a partir da velocidade da recuperação.

Rocha vê boas chances de que o PIB cresça na margem 2,5% no último trimestre deste ano e chegue ao trimestre eleitoral em 2018 com expansão próxima a 3% no mesmo critério.

O economista acompanha atentamente a série das avaliações de bom e ótimo dos governos, e vem analisando a sua correlação com ritmos de crescimento do PIB. Se, como no seu cenário principal, a economia estiver rodando a 3% no terceiro trimestre de 2018, ele considera que os “ótimos e bons” de Temer podem alcançar cerca de 35%, o que torna a eleição do candidato do governo bastante possível, mas não garantida. Ele nota que esta própria perspectiva positiva no front político pode animar empresários e consumidores, e contribuir para dar mais gás ao ritmo da economia, configurando um círculo virtuoso.

Por outro lado, caso a retomada se dê em ritmo bem mais lento do que o previsto, um cenário inverso pode se apresentar: aquele em que o PIB ainda chegue capengando no terceiro trimestre de 2018, jogando muito para baixo a popularidade de Temer no período eleitoral, o que aumenta as chances de vitória de um candidato antirreformista. Neste caso, o temor de descontinuidade da agenda reformista e liberal pode assustar os investidores, e contribuir para desacelerar da atividade, piorando ainda mais as perspectivas de vitória de candidatos que representem o status quo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/3/17, terça-feira.