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O que abriu as portas para Bolsonaro?

Polarização aguda e desmoralização das elites dirigentes criam o espaço para o surgimento de populistas com inclinação fascista.

Fernando Dantas

10 Outubro 2017 | 23h41

O crescimento das intenções de votos para presidente em Jair Bolsonaro é, infelizmente, a maior novidade política no Brasil nos últimos anos. É um fenômeno que tem paralelos em outros países, como fica claro, por exemplo, na ascensão ao poder de Donald Trump nos Estados Unidos e Rodrigo Duterte nas Filipinas.

Todos os três são casos de extremismo populista e, embora Trump e Bolsonaro estejam clara e assumidamente na direita (já Duterte se diz de esquerda), na verdade são políticos que embaralham as noções ideológicas que prevaleceram nas últimas décadas.

O que caracteriza essas lideranças é que elas rompem completamente a peneira que o establishment e a elite política e socioeconômica tradicional tentam interpor entre a plena soberania popular e a ocupação dos mais altos cargos de direção de um país democrático, para tentar garantir os bons costumes – mesmo que muitas vezes de forma hipócrita e só no discurso e na aparência.

Para quem vê a história como um permanente conflito de interesses entre elites e massas, a ruptura de qualquer filtro entre vontade popular e exercício do poder deveria ser vista como positiva. Na prática, e paradoxalmente, pode-se desaguar em líderes políticos com um pé no fascismo, como é o caso dos três mencionados acima.


Bolsonaro, Trump e Duterte caracterizam-se por defender o que é considerado indefensável pelas elites bem pensantes (e aqui o termo é usado sem ironia). No caso do brasileiro, a ditadura, a tortura, as execuções extralegais, além do preconceito contra minorias. Já Trump namora abertamente grupos racistas que estavam marginalizados da política norte-americana e Duterte defende o assassinato ilegal de criminosos pela polícia.

Polarização ideológica aguda e desmoralização das elites são as portas de entradas de populistas protofascistas nas correntes principais da política em países democráticos. A polarização – quando aceita, adotada e estimulada por grupos políticos relevantes – já é uma forma de desmoralização ao nível das ideias, do discurso e da prática política. É a situação em que o radicalismo insensato, a intransigência destrutiva e a irracionalidade desenfreada tomam o lugar do difícil exercício de negociação civilizada entre adversários, que é a alma da política democrática.

Por cima da polarização, a plutocracia e a perda de sintonia entre as elites e a as massas (caso tipicamente americano) ou a corrupção deslavada (caso brasileiro) completam o trabalho de criar um enorme fosso de desconfiança ou de franca hostilidade entre a maior parte da sociedade e as camadas dirigentes.

Destruído o respeito que a população sente pela estrutura de representação que existe para governar o país, desaparece também o freio institucional representado pelo aval (ou negação dele) das lideranças políticas tradicionais e das vozes moderadas que influenciam a opinião pública. Nesse colapso da respeitabilidade do establishment, políticos como Trump tomam de assalto grandes e históricos partidos, como o Republicano; ou, como no caso de Bolsonaro, arrumam facilmente legendas menores, oportunistas e prontas para o que der e vier, a partir das quais montam suas aventuras de poder.

Não se espere desse tipo de político qualquer racionalidade em termos de plataforma econômica, mesmo porque esta é uma área que não está no centro da sua preocupação. Populistas com tendências fascistas buscam primordialmente atiçar ódios grupais e canalizar estas energias para, de forma crescente, fortalecer o seu poder e esmagar os adversários. Na economia, podem ser protecionistas, como Trump, ou estatistas, como Bolsonaro (pelo menos até anteontem), ao sabor dos seus preconceitos e de um coreografado desdém em relação ao conhecimento acadêmico e aos especialistas.

Diante da perspectiva de um retrocesso político, social e moral como o de um eventual governo Bolsonaro, entretanto, a questão econômica de fato cai para o segundo plano. Trata-se, no caso, de um conflito entre civilização e barbárie. Não existe nenhuma plataforma econômica que legitime as trevas na política. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/10/17, terça-feira.