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O que segura a retomada

Produção industrial de outubro confirma ritmo consistente, mas morno, da recuperação. O risco é o crescimento da incerteza sobre a política econômica a partir de 2019.

Fernando Dantas

06 Dezembro 2017 | 17h34

A produção industrial em outubro confirmou, como já notado por muitos analisas, a marcha lenta e gradual da recuperação. Esse gradualismo, entretanto, no contexto de incerteza política e fragilidade fiscal da economia brasileira, pode se tornar uma vulnerabilidade para a retomada.

Os bens intermediários, por exemplo, recuaram 0,8% na comparação com setembro, na série dessazonalizada, mas apresentaram crescimento de 3,1% em termos interanuais, isto é, comparado a outubro de 2016.

À luz desse último resultado, mas comentando o PIB como um todo, Julio Mereb, economista do Ibre/FGV diz que “depois de um terceiro trimestre mais positivo, esperamos alguma acomodação no quarto trimestre, mas que não caracteriza uma reversão de tendência”.

Excluindo a agropecuária, que este ano teve movimentos fortes e impactos significativos ao longo dos trimestres, a projeção do Ibre/FGV é de um crescimento do PIB no quarto trimestre de 0,3% na comparação com o segundo na série dessazonalizada. Isto representa uma desaceleração ante o crescimento de 1,2% no terceiro trimestre, na mesma base de comparação e também excluindo a agropecuária.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX Investimentos, destaca, na produção industrial de outubro, o desempenho dos bens de capital, que cresceram 1,1% contra setembro na série dessazonalizada – acumulando sete meses fora do vermelho, com números positivos desde junho, com exceção de setembro, quando o resultado ficou no zero.

“Não é uma alta forte, mas é um alta consistente”, diz Solange.

Em relação aos bens intermediários, ela nota, como Mereb, que eles sinalizam, por comporem grande parte da produção industrial, que a retomada é de fato lenta “e não se espera nenhuma recuperação mais forte para os próximos meses”.

Para Solange, três fatores restringem uma recuperação mais forte da produção industrial e da economia. O principal é a incerteza política e sobre a continuidade da atual política econômica, tendo em vista as imprevisíveis eleições do próximo ano.

É verdade que a confiança de empresários e consumidores vem subindo bem e de forma consistente, mas a analista acha que esse movimento não vai até agora além da recuperação cíclica: isto é, o que caiu muito acaba subindo. Ainda não se caracteriza, portanto, a confiança numa retomada que vá além do movimento estritamente cíclico, como seria o caso se despontasse a vitória de um candidato que sinalizasse de forma firme a continuidade das reformas econômicas.

Nesse caso, o horizonte dos juros baixos se estenderia e apontaria um crescimento econômico num ritmo mais satisfatório por dois ou três anos. Nesse contexto, a seu ver, as empresas pensariam efetivamente em aumentar a capacidade de produção, e não apenas em voltar para níveis menos anormais depois de uma das piores recessões da história.

Outro fator restritivo está no mercado de trabalho, em que a retomada até mais rápida do que o antecipado veio primordialmente do setor informal. Além disso, o aumento real dos salários em 2018 não contará com a desaceleração inflacionária forte, como em 2017, e ainda deve ser contido por um reajuste nominal do salário mínimo abaixo de 2,5% e por reposições baixas dos salários renegociados em geral.

Pelo lado do crédito, por sua vez, a queda dos juros não foi acompanha por uma redução relevante dos spreads.

De certa forma, a incerteza política dissemina-se por todos esses fatores que restringem o ritmo da recuperação. As empresas relutam em contratar formalmente e os bancos se mantêm na defensiva, o que se reflete na resistência dos spreads. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/12/17, terça-feira.