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O repeteco de 2018

Este ano está ficando parecido com o passado, na visão do economista Julio Mereb, do FGV/Ibre. O que não é bom para os candidatos centristas.

Fernando Dantas

06 Abril 2018 | 18h15

O ano de 2018 na economia brasileira, curiosamente, está ficando com o jeito de 2017. A observação é de Julio Mereb, economista do Ibre/FGV.

O primeiro paralelismo está na atividade econômica e nas expectativas quanto ao ritmo do PIB. É fato indiscutível que o crescimento será substancialmente maior em 2018, com aceleração de 1% (em 2017) para 2,84%, segundo a última estimativa mediana do sistema Focus.

Mas essa aceleração deve ser menor que a esperada pelos analistas mais otimistas há até pouco tempo. Esse recuo da projeção ainda é discreto quando medido pelo Focus – o pico recente foi há cerca de um mês, quando a previsão mediana do PIB este ano chegou a 2,92%.

Contudo, quem acompanha de perto a dança das projeções das principais instituições sabe que houve uma onda de otimismo entre o final do ano passado e o início deste, que fez com que os analistas mais entusiásticos chegassem a cogitar de expansões do PIB em 2018 caminhando para o intervalo entre 3,5% e 4%. Com uma sucessão de dados decepcionantes de atividade a partir de fevereiro, porém, a onda murchou, e o viés das previsões hoje de maneira geral é negativo.

Assim, 2018 será melhor que 2017, mas a sensação de uma recuperação muito morna e um pouco desapontadora está se repetindo – pelas melhores previsões atuais – entre um ano e outro.

Outro paralelo é o desempenho da agropecuária. No final do ano passado, achava-se que este seria um fator de contraste: uma safra espetacular em 2017, que “salvou” o PIB, seguida de um recuo comparativo, que acabaria sendo um fator negativo para o crescimento. Mas não é o que se está verificando. A safra de 2018 foi ficando com um jeito melhor a cada nova projeção, e agora a ideia é que o efeito da agropecuária no crescimento do PIB este ano possa estar mais próximo do neutro.

A projeção do Ibre para o PIB da agropecuária em 2018 saiu de -2%, em dezembro, para -0,2% em março, e o viés é positivo – a próxima previsão já deve estar em território levemente positivo.

Finalmente, a maior semelhança entre este ano e o passado fica por conta da inflação, onde prosseguiram as surpresas baixistas. Na alimentação no domicílio do IPCA, depois de uma deflação de 4,85% em 2017, não está acontecendo a “devolução” que alguns previam para este ano. No primeiro trimestre, a inflação de alimentos no IPCA-15 ficou em apenas 0,81%.

Os serviços, por sua vez, mais reativos à política monetária, estão rodando a 4,20% em 12 meses, e o núcleo dos serviços subjacentes do Banco Central, na sua medida dessazonalizada, trimestral e anualizada está em apenas 2,36%.

Com isso, o Banco Central prepara-se para cortar a Selic pela terceira vez este ano na reunião de maio, o que também cria uma sensação de continuidade em relação a 2017.

Do ponto de vista das interações entre economia e política, um ano de 2018 com gosto de 2017 não parece ser nada bom para as pretensões das candidaturas centristas. Não pela baixa inflação e pela agropecuária, claro, mas sim pelo desempenho da atividade econômica pouco animador. Aliás, outro paralelo é o grande mau humor popular demonstrado tanto nas pesquisas de intenções de voto, em relação ao governo (o que contamina plataformas de política econômica liberal), quanto nas avaliações da situação presente pelos consumidores.

E é isso, afinal, que pode produzir uma diferença mais substancial entre os dois anos. Se o medo eleitoral afetar de forma mais forte os mercados e a economia, isto será bem diferente em relação à tranquilidade de 2017. E essa diferenciação poderá ser puxada também pelo mercado externo, que permanece favorável, mas com algumas chuvas e trovoadas que podem estar prenunciando uma mudança para pior mais acentuada. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/4/18, sexta-feira.