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Os tucanos em seu labirinto

Não é fácil para o PSDB ser o partido que representa a política econômica ortodoxa e liberal num país com tanta suscetibilidade ao populismo. Mas existe um caminho sensato para os tucanos seguirem, caso as forças dos egos inflados e da autodestruição não prevaleçam.

Fernando Dantas

01 Dezembro 2017 | 18h00

É pesado o fardo do PSDB de ser o partido importante que mais representa as ideias liberais e ortodoxas na política econômica, num país emergente com terrível distribuição de renda e, portanto, sempre vulnerável às sereias populistas. É compreensível, portanto, até certo ponto, que os tucanos se vejam eternamente presos em seu labirinto.

Dividido, angustiado, à beira de um ataque de nervos, o partido segue hesitando entre defender aquilo que o diferencia da massa fisiológica do Congresso ou aderir à prática política rasa de boa parte dos demais partidos: a corretagem dos interesses de grupos de pressão e o atendimento, cego às consequências, da vontade imediatista das massas, açulada pela gritaria populista.

Ou seja, o dilema é entre defender o legado e a identidade do partido ou se entregar à busca desesperada por verbas e votos, a qualquer preço e em detrimento de um projeto de desenvolvimento socioeconômico de médio e longo prazo e do avanço do bem-estar-social sustentável.

Alguns fatores adicionais tornam ainda mais complexa a equação do PSDB. Seguindo uma linha típica da política brasileira, como se via nos embates entre udenismo e getulismo, os tucanos preferem atacar o populismo pelo flanco da corrupção, já que sabem que a ortodoxia econômica tem dificuldade de ganhar votos num país em que o nacionalismo estatista tem uma tradição de força política.

É claro que a corrupção deve ser atacada, mas o problema de focar obsessivamente neste tema e tentar se diferenciar por meio dele é que, como fica claro com Aécio, o PSDB tem telhado de vidro, e o feitiço pode rapidamente se virar contra o feiticeiro.

A outra questão é que há, no pensamento econômico tucano, uma corrente dissidente de inclinação desenvolvimentista. Em questões como BNDES, proteção à indústria nacional e conteúdo local, existe um substancial fosso ideológico separando a visão da Casa da Garças, o recluso think tank pró-tucano em torno dos economistas da PUC-Rio, e o entendimento de lideranças políticas mais ligadas à indústria paulista.

E, finalmente, para piorar ainda mais as coisas, o partido se engajou – como de hábito, num processo tortuoso e vacilante, na esteira do impeachment – no governo Temer, que veio a se tornar o presidente mais impopular desde a redemocratização.

Com tantos conflitos, problemas, contradições e particularidades, a pior profissão do mundo deve ser mesmo a de estrategista político do PSDB. Mas a vida segue em frente e o partido tem que se posicionar e tomar decisões vitais antes daquela que promete ser uma das mais importantes eleições presidenciais desde a redemocratização.

Uma providência óbvia, que só não será posta em prática se o partido sucumbir definitivamente às paixões e aos ressentimentos da guerra fratricida entre lideranças personalistas, é interromper a desmoralizante brigalhada pública. No momento, isto passa pela consolidação da candidatura presidencial de Geraldo Alckmin, que terá que atuar como árbitro dos conflitos.

Sair do governo e continuar apoiando a agenda de reformas, especialmente a da Previdência, pode parecer ridículo aos que analisam a política apenas pelo prisma de luta pelo poder, mas faz sentido quando se pensa em identidade ideológica.

O governo Temer foi desmoralizado por escândalos, e não pela agenda econômica. Há, evidentemente, um quê de hipocrisia em qualquer partido brasileiro que alegue tomar determinada decisão para não compactuar com a corrupção. Mas a alternativa, isto é, compactuar com a corrupção, é muito pior. E como a política não deve ser vista apenas como guerra de facções, mas também como a defesa de projetos ideológicos e programáticos, é possível, sim, sair do governo e continuar a defender determinadas medidas. Se isto vai ter qualquer impacto junto aos eleitores a esta altura do campeonato é uma outra questão. Mas mal não deve fazer.

E, finalmente, chega-se à questão substantiva daquilo pelo que o PSDB deve lutar. O fardo da plataforma liberal e ortodoxa pode ser pesado, mas é também o único trunfo tucano. Como escreveu em recente artigo o economista Renato Fragelli, da EPGE/FGV, se o PSDB tivesse pacientemente defendido a política econômica responsável e liberal em todas as campanhas em que foi derrotado, estaria faturando alto hoje em dia a desastrosa falência do experimento intervencionista da nova matriz econômica.

Se esses termos parecem muito distantes do dia a dia das preocupações do povo, é possível traduzi-los como um alerta claro, que poderia ter sido feito durante a campanha de 2014, de que a economia caminhava para o buraco e que a candidata governista mentia quando dizia que não era preciso fazer um ajuste. Não é preciso ter PhD em Economia para entender o estelionato eleitoral de 2015, que destroçou a popularidade de Dilma, mas do qual o PSDB tirou muito menos ganho político do que poderia, por ter sido sempre ambíguo e envergonhado na defesa da política econômica estabelecida durante o governo de FHC (e mantida por Lula na parte inicial do seu primeiro mandato). (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/11/17, quarta-feira.