As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Otimismo de centro

Cientista político Carlos Pereira, da Ebape, diz que esquerda está ainda mais fragmentada que o centro, que Bolsonaro deve desidratar e que provável vencedor da eleição presidencial será candidato comprometido com redução da desigualdade e responsabilidade fiscal, e que dará continuidade à agenda de reformas.

Fernando Dantas

15 Fevereiro 2018 | 13h50

Com Lula aparentemente afastado da disputa presidencial – isto é, da chance efetiva de se tornar presidente, o que não quer dizer que vá desistir de fazer campanha até o ponto em que for possível –, as atenções do mercado se voltam para viabilidade de uma candidatura competitiva de centro, que garanta a continuidade da agenda de reformas.

Há uma visão pessimista de que o centro está dilacerado pelos efeitos da Lava-Jato, do apoio do PSDB ao impopularíssimo governo Temer e pelas disputas internas do PSDB. Assim, o resultado da eleição seria extremamente incerto, e uma vitória do populismo, de esquerda ou de direita, não poderia ser descartada.

Na contramão dessa interpretação está o cientista político Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresa (Ebape/FGV), no Rio. Para ele, “o centro não está perdido, mas sim sendo disputado, e o jogo eleitoral vai ser definido no centro”.

Pereira prevê que o ganhador da eleição presidencial este ano será necessariamente alguém comprometido com duas bandeiras fundamentais num país como o Brasil neste momento histórico: o combate à desigualdade e o zelo pela responsabilidade fiscal (o que implica dar continuidade à agenda de reformas).

Segundo o cientista político, dois “choques” alteraram profundamente o jogo político-partidário brasileiro nos últimos anos: o impeachment de Dilma Rousseff e a Lava-Jato.

O resultado foi uma troca no arranjo partidário clássico: o PMDB, que fazia o papel coadjuvante de “legislador mediano” tanto para o PT quanto para o PSDB, assumiu o protagonismo da liderança do Poder Executivo Nacional. E o PSDB caiu para o papel coadjuvante no governo Temer. Adicionalmente, o candidato natural do PSDB e do centro, Aécio Neves, foi “degolado politicamente” pela Lava-Jato.

Dessa forma, as cartas foram embaralhadas e é natural que nada seja como dantes. Na visão de Pereira, entretanto, o cenário turbulento no centro, resultado desse rearranjo político, não significa fraqueza, como interpretam muitos analistas.

Concretamente, ele vê duas ou três candidaturas de centro disputando um lugar ao sol no primeiro turno, mas prevê que a agenda reformista estará no segundo turno e vai ganhar a eleição. Geraldo Alckmin deve sair pelo PSDB, Temer pode buscar um candidato que o represente (o cientista político vê a eventual candidatura do atual presidente como “delírio”), e há ainda Marina Silva pela centro-esquerda.

Outros nomes, sejam de completos outsiders, como Luciano Huck, ou de novos nomes para a política presidencial, como Henrique Meirelles, dependerão – para terem chance de se tornarem competitivos – do apoio de um grande partido. Sem essa capilaridade nacional e a garantia de bons nacos do fundo partidário e do tempo de TV, Pereira acha que é muito difícil qualquer candidatura decolar.

Já pela esquerda, o cientista político vê uma fragmentação ainda maior do que no centro. Como a candidatura presidencial tornou-se para Lula um “projeto de salvação jurídica”, o ex-presidente tende a levá-la até quando for possível. Isso, porém, estimula o lançamento de candidatos por siglas de esquerda como PSOL e PCdoB e também a tentativa de Ciro Gomes.

Adicionalmente, Pereira nota que pesquisa sua indica que o poder de influência de um político envolvido em denúncias tende a cair bastante quando efetivamente as penas são implantadas. Então o fato de Lula não usar o seu “dedaço” para promover já, por exemplo, uma candidatura alternativa de Jaques Wagner tem dois inconvenientes para o PT. O primeiro é que haverá menos tempo para trabalhar a candidatura, e o segundo é que o dedaço ficará progressivamente menos efetivo se, por exemplo, Lula já estiver preso ou cada vez mais soterrado no seu calvário legal.

“O Lula tornou o PT refém da sua estratégia (pessoal) de sobrevivência judicial”, resume o pesquisador.

Quanto a Bolsonaro, finalmente, Pereira acha que ele tende a se desidratar durante a campanha eleitoral pela falta de base partidária. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/2/18, quarta-feira.