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Para onde vai a nova direita?

Tensões entre liberais em economia e - num sentido um pouco diferente - em temas de comportamento, identidade e direitos, de um lado, e populistas conservadores, de outro, começam a ficar mais fortes dentro da nova direita brasileira.

Fernando Dantas

13 Setembro 2017 | 20h40

A partir das manifestações de junho de 2013, seguidas pouco depois pelos movimentos de massa que deram suporte ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, foi se tornando evidente que algo mudara na paisagem política brasileira. A ausência da direita nas ruas – característica do período que se iniciara ainda durante as lutas pela redemocratização nos anos 80 – subitamente tornou-se algo do passado.

Após uma longa fase de baixa, em que amargou a ressaca do término em fiasco do regime militar, a direita passou novamente a mostrar a cara e a conseguir repercussão popular.

No seu pior aspecto, essa tendência deu origem ao fenômeno Bolsonaro, um presidenciável com considerável cacife de intenção de votos que já defendeu a tortura e que ditaduras como a brasileira e a chilena deveriam ter matado mais – posições frontalmente incompatíveis com o Estado de Direito.

Por outro lado, a emergência da direita também desembocou em inovações promissoras, pelo menos em teoria, como o Partido Novo, uma agremiação que se pretende seriamente liberal, e com um arcabouço de regras internas desenhado para evitar os velhos vícios da política brasileira, como patrimonialismo e corrupção. A respeitabilidade do Novo fica atestada pelo fato de que Arminio Fraga, que goza de boa reputação e grande prestígio social, seja um entusiasta do partido.


Há, portanto, de forma simplificada, uma ala populista e outra liberal na reemergência da direita no Brasil. Por detrás dessa descrição esquemática, entretanto, paira toda a enorme pauta das questões identitárias, culturais e de direitos que consome grande parte da energia política atualmente em muitos países. A direita populista tende a ser conservadora nesses temas, enquanto parte considerável dos liberais (mas não todos, evidentemente) são também “liberais” em termos de comportamento, direitos, etc.

A atual polêmica sobre o encerramento antecipado pelo Santander da exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira” em Porto Alegre é sintomática dessa tensão entre conservadores populistas e liberais “liberais” dentro da nova direita brasileira. A exposição efetivamente tem obras com temática sexual não convencional, mas que só escandalizam quem desconhece a arte universal, da Antiguidade Clássica ao Renascimento e a todo o experimentalismo moderno e pós-moderno.

De qualquer forma, o Movimento Brasil Livre (MBL), uma expressão da nova direita jovem, capitaneou um movimento de exortação aos clientes do Santander a boicotarem o banco, levando a instituição a recuar e encerrar prematuramente a exposição.

Outro ponto potencial de discórdia entre populistas e liberais é a imigração. Embora o Brasil tenha e receba uma quantidade muita pequena de imigrantes, isto já foi suficiente para algumas manifestações recentes de xenofobia.

É comum se olhar para fenômenos como Trump nos Estados Unidos ou Marine Le Pen na França para traçar paralelos com o que pode vir a ocorrer no Brasil à medida que a direita se popularize. Um exemplo menos focado, mas que pode trazer lições bem pertinentes ao Brasil, é o do partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD).

Em longa e detalhada reportagem recente (é preciso assinatura para entrar), o jornal britânico Financial Times mostra como a AfD nasceu como um partido anti-establishment (especialmente contra a União Europeia) e defensor de uma visão liberal e ortodoxa em economia – o que guarda semelhanças com o Partido Novo. O AfD, entretanto, está sendo gradualmente capturado por políticos e simpatizante de perfil mais populista e anti-imigração, com uma descaracterização de seu perfil inicial que inclusive levou ao afastamento de alguns dos seus fundadores.

Quando se entra no blog do Partido Novo, ao lado de textos a favor do modelo chileno e contra o bolivarianismo venezuelano – temáticas liberais por excelência – encontram-se artigos contra o estatuto do desarmamento e com críticas à nova lei de migração, evocativos de bandeiras da direita populista em outros países.

Essas tendências potencialmente conflitantes por enquanto convivem sem maiores atritos no interior do Novo e da nova direita brasileira em geral, com a possível exceção de Bolsonaro e seus seguidores. Contudo, com o progressivo acirramento das polaridades e dos ânimos típicos da nossa época, tanto no Brasil quanto em outros países, pode surgir o momento em que um divórcio se torne inevitável.

A parte mais esclarecida da direita brasileira e o Partido Novo em particular deveriam refletir sobre o histórico nada nobre dos períodos históricos em que elites liberais se adaptaram para viver sem maiores problemas em países dominados pelo tacão da direita populista. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/9/17, quarta-feira.