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PIB: ressaca do consumo mais efeito Lava Jato

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, vê tanto esgotamento de modelo de alto consumo e baixa poupança quanto paralisia pelos efeitos da Lava Jato no mau resultado do PIB do segundo trimestre de 2015.

Fernando Dantas

01 Setembro 2015 | 11h04

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, acha que os maus resultados o PIB do segundo trimestre – e as más perspectivas à frente – são explicados pela “ressaca” do modelo baseado no consumo, somada aos fortes efeitos da operação Lava-Jato na economia e na política. A seguir, a entrevista, realizada na sexta-feira, 28/8/15, dia da divulgação do PIB do segundo trimestre.

Quais as suas impressões sobre o PIB do segundo trimestres?

Mostra que a desaceleração se aprofundou, como esperado, no segundo trimestre. A queda de 1,9%, na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre, foi superior à nossa previsão de 1,5%. A maior queda, sob a ótica da oferta, foi da indústria, com 4,3%, que foi superior à nossa projeção de 3,1%.

O que explica isso?


O erro da nossa projeção na indústria foi muito explicado pelo péssimo desempenho da indústria de construção civil. Embora já estivéssemos esperando um resultado muito ruim, com queda de 5%, o recuo na verdade foi de 8,4%. E me parece que uma das explicações naturais, além da retração do setor de construção habitacional, é a questão da infraestrutura, com claros efeitos extra econômicos da operação Lava-Jato. Nos dois trimestres anteriores, a construção civil tinha mostrado números perto da estabilidade, e neste segundo trimestre veio esta queda muito acentuada.

O investimento também parece ter sido afetado.

A formação bruta de capital fixo veio em linha com nossa projeção, com uma queda muito dramática de 8,1%. Temos motivos para acreditar que o investimento esteja caindo quase generalizadamente, mas, dentro desse número, parece ter contribuição importante da Lava-Jato, por meio do recuo da construção.

Como o sr. viu a queda nos serviços e na renda das famílias?

Chama atenção que pelo segundo trimestre consecutivo temos queda de serviços, de 0,7%, dentro do esperado, mostrando que o carro-chefe da economia nos últimos anos já não contribui para o crescimento do PIB. E dentro dos serviços, o que se destaca é a queda forte do comércio, que há dois trimestres recua na ordem de 3%. O que percebemos é que houve um padrão de crescimento muito calcado na inclusão social, na melhora do mercado de trabalho. Isso foi um processo virtuoso até um determinado momento, 2010, 2011, mas que bateu no limite dado pelo desajuste macroeconômico, queda do PIB potencial, perda de competitividade, câmbio sobrevalorizado, etc. Agora começamos a pagar o preço, via um ajuste mais dramático da economia. Todo aquele processo de desemprego muito baixo, de alta da renda, ditava uma dinâmica muito positiva para o setor de serviços, para o comércio. Agora é a ressaca do modelo baseado em pouca poupança e muito consumo: o mercado de trabalho cai fortemente e a renda real se contrai.

Há chances de alguma surpresa positiva que melhore esse cenário sombrio da economia em 2015 e 2016?

Talvez do lado do setor externo, que foi o único dado positivo, com alta da exportação e forte queda da importação. Houve forte contribuição do setor externo em atenuar a queda do PIB. Pode ser que venha alguma surpresa daí. Mas na questão central do crescimento, a parte de consumo, há todos esses indicadores antecedentes mostrando confiança estacionada em níveis baixíssimos. A confiança da indústria também está em recorde de baixa, e há a indefinição em relação aos resultados fiscais – até segunda-feira vamos ver a questão da CPMF, quais a chances de fazer mais uma pernada de ajuste com aumento de carga tributária, que naturalmente não é a melhor maneira de induzir confiança. O mercado de trabalho continua a se deteriorar. Não consigo enxergar de onde possa vir uma grande melhora na absorção doméstica. A gente pode até errar, mas a direção parece ser claramente negativa.

E quando haverá recuperação econômica de fato?

Bem, só em 2017. O que precisa ser dito é que este ajuste é diferente de outros anteriores que eu assisti, e não é só por causa dos aspectos estruturais de controle de gastos. Lá atrás também era um pouco assim, e foram feitas elevações muito fortes da carga tributária. Agora é mais grave porque a carga tributária já é muito alta. Mas tem um outro fator que torna tudo isso muito mais complicado, que é a Lava-Jato, tanto na dimensão econômica, com a paulada no PIB – tem gente que fala de perda de até dois pontos do PIB. Se for correto, sem ela poderíamos falar de um PIB caindo de zero a -1%, que era o que tínhamos no final do ano passado. Essa paulada pelo lado econômico é muito forte e dificulta fazer o ajuste fiscal pelo lado da receita. Além disso, a Lava-Jato é uma bomba também na política, levando a um quadro tumultuado, beligerante, de fratura na base governista, que dificulta avançar nas próprias medidas do ajuste fiscal clássico. Então, a dramaticidade deste momento é que a gente vive um ajuste muito profundo, de curto prazo e estrutural, e ao mesmo tempo tem um fator extra econômico muito negativo tanto para a economia quanto para a política.

Como o resultado do segundo trimestre impacta as suas projeções para a economia daqui em diante?

Esperamos a divulgação para fazer nossa revisão da projeção para este ano, que passa de queda de 2,2% para queda de 2,7%. Assim, o carregamento estatístico para o próximo ano sobe de -0,1 (ponto porcentual, pp) para -0,3 pp. Pelo nosso modelo, saímos de -0,2% para -0,5% de PIB em 2016. O resultado de hoje não mudou muito nossas projeções para os dois últimos trimestres. O que mudou foi o próprio resultado do segundo, além da revisão do primeiro, de -0,2% para -0,7%. No terceiro trimestre, revisamos de -0,5% para -0,6%, e, para o quarto, de -0,4% para -0,3%. O cenário, portanto, é de quatro trimestres negativos este ano. Hoje, as previsões mais sombrias de queda de 3% do PIB em 2015 já não são algo que possamos descartar. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/8/2015.