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Por que o mercado “comprou” Marina

Fernando Dantas

26 agosto 2014 | 19:18

Interlocução de Marina com economistas liberais não é recente, e seu grupo político de origem, no Acre, é muito moderado no espectro ideológico do PT. Na questão ambiental, a candidata do PSB também vem dando sinais de flexibilidade. Parece ter sido o suficiente para a bolsa subir junto com Marina nas pesquisas. Mas rejeição do mercado à Dilma também explica o fenômeno.

A se confirmarem os rumores que surgem por todas as partes, de que Marina ganhou um caminhão a mais de intenções de votos desde a última pesquisa da Datafolha, o Brasil estará diante de um fenômeno eleitoral praticamente inédito desde pelo menos 1994, na análise de um conhecido cientista político.

(Esta coluna foi publicada na manhã da terça-feira, 26/8. À tarde, confirmou-se o salto de Marina nas pesquisas).

O cientista político explica que já houve outros casos de fortes ascensões de candidatos que poderiam quebrar a polaridade entre PT e PSDB, mas não num momento tão adiantado da campanha e aparentemente por meio de uma onda de “contaminação” das intenções de voto que é mais comum em eleições majoritárias em municípios ou no máximo em Estados.

De qualquer forma, antes mesmo que a pesquisa do Ibope seja divulgada hoje às 18 horas pelo Estadão e a TV Globo, criou-se um clima de quase favoritismo da candidata do PSB que está refletido na alta do Ibovespa nos últimos dias. Assim, o mercado está “comprando” a candidatura de Marina apesar do seu passado petista e de esquerda, das dificuldades que teria para formar uma base de apoio parlamentar como presidente e de possíveis conflitos entre sua postura ambiental e os interesses do agronegócio e o andamento mais célere dos projetos de infraestrutura e energia.

“Isso é um indicativo de quão pouco o mercado gosta da Dilma”, diz um respeitado economista e sócio de uma gestora de recursos.

A visão é de que os sinais de que Marina faria uma política econômica mais ortodoxa, com restauração do tripé macroeconômico, são bem mais do que simples marketing político.

“Ela na verdade já tem essa postura e é assessorada por economistas com essa visão antes mesmo de Eduardo Campos, e foi ela quem levou para ele essa abordagem”, comenta um analista. Ele se refere a economistas como André Lara Resende e Eduardo Giannetti da Fonseca, ambos de perfil liberal.

O grupo político do PT do Acre no qual Marina tem suas raízes, do qual fazem parte os irmãos Tião Viana (atual governador do Estado) e Jorge Viana (vice-presidente do Senado), além de Binho Marques (ex-governador acreano), é bastante moderado dentro do arco de tendências petistas. Muitos interlocutores dos irmãos Viana e de Binho têm a impressão de que o grupo convive muito bem com o tipo de política econômica mais ortodoxa implementado durante a gestão do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Na campanha de 2010, Marina foi assessorada na política social por Ricardo Paes de Barros, grande especialista na área, e hoje na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Barros, que participou da criação do Bolsa-Famíia, é doutor em Economia pela liberal Universidade de Chicago e tem grande interlocução com economistas de linha mais ortodoxa, como os da PUC-Rio ou da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da FGV-Rio. Na verdade, Barros é intensamente admirado pela grande maioria dos economistas ortodoxos brasileiros, e já sofreu restrições de acadêmicos com inclinações mais heterodoxas e desenvolvimentistas.

Recentemente, chamou a atenção (inclusive de forma negativa na esquerda) a proximidade de Marina com Maria Alice Setúbal, da família dos principais sócios do Itaú, que indicou que a candidata do PSB daria autonomia formal ao Banco Central (BC). Guilherme Leal, principal acionista da Natura, é um dos mais bem sucedidos e ricos empresários brasileiros, e foi candidato a vice-presidente na chapa de Marina em 2010 pelo Partido Verde.

Assim, Marina tem realmente um histórico de aproximação com a classe empresarial e com economistas de tendência mais liberal, apesar da sua longa carreira política no PT e de sua grande ênfase nas questões ambientais e no crescimento sustentável.

Uma grande interrogação é saber se os quadros econômicos do PSDB seriam atraídos para um eventual governo de Marina. Em entrevista à revista Veja no último domingo, Armínio Fraga, apontado como virtual ministro da Fazenda em um hipotético governo Aécio, disse que não iria. É provável que a resposta seja sincera, mas, por outro lado, é evidente que, se indicasse o contrário, Armínio pioraria ainda mais a cambaleante candidatura do mineiro. De maneira geral, a visão é de que Marina absorveria pelo menos alguns quadros hoje vinculados a Aécio. Gianetti da Fonseca, assessor econômico da candidata, já revelou que ela quer aproveitar os bons nomes técnicos do PT e do PSDB.

Na linha da militância ambiental, finalmente, Marina tem emitido sinais conciliadores e de flexibilidade por meio de assessores como o biólogo João Paulo Capobianco.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/8/14, terça-feira.