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Quão “radioativo” será Temer em 2018?

"Índice de infelicidade", que soma inflação e desemprego, indica um pequeno ponto de luz no fim do túnel da impopularidade de Michel Temer. Mas é muito tênue mesmo, e pressupõe que atual política econômica mantenha-se nos trilhos.

Fernando Dantas

01 Agosto 2017 | 12h53

Com a catastrófica popularidade de Michel Temer, a pior jamais alcançada por um presidente desde a redemocratização (segundo os últimos dados do Ibope), uma questão pertinente é o efeito de “contaminação” a qualquer candidato presidencial em 2018 que, de uma forma ou de outra, esteja associado ao atual chefe de Executivo (caso Temer não seja destituído antes). Ontem, reforçando a sensação da “radioatividade” de Temer, o Ibope revelou que 81% dos eleitores querem que a denúncia contra o presidente no STF seja aceita pela Câmara.

A retomada da economia está ocorrendo de forma bem mais lenta do que se previa no ano passado. O desemprego aparentemente já começa a ceder, mas as projeções para o ano eleitoral ainda são de níveis extremamente altos em termos históricos. Finalmente, a máquina de escândalos da operação Lava-Jato não dá sinais de que vá arrefecer tão cedo. Tudo parece indicar, portanto, que Temer se manterá em 2018 como um dos maiores fardos eleitorais das últimas décadas.

Tudo, na verdade, menos o chamado “índice de infelicidade”, uma medida que vem sendo utilizada por analistas políticos e econômicos nos últimos anos (no Brasil e em outros países) por sua proverbial correlação com a impopularidade presidencial.

O índice de infelicidade, às vezes chamado de índice de miséria, é muito simples: a soma do desemprego com a inflação. Bráulio Borges, da consultoria LCA e do Ibre/FGV, calculou o indicador para o período 1997-2017, tomando a taxa de desemprego dessazonalizada da Pnad  Contínua e o IPCA acumulado em 12 meses. Adicionalmente, comparou a trajetória do índice de infelicidade e a avaliação “líquida” do governo nas pesquisas do Datafolha no mesmo período. A avaliação líquida é a soma do ótimo e bom subtraída da soma do ruim e péssimo.

Nesse exercício, Borges constatou que o momento atual é um daqueles em que há descolamento entre índice de infelicidade e impopularidade presidencial. Ao longo de 20 anos, esses momentos são a exceção, e não a regra: de forma geral, o índice de infelicidade varia de forma inversamente proporcional à popularidade presidencial.

Uma exceção notável, por exemplo, foi o início do governo Lula, quando o índice de infelicidade atingiu seu pico histórico nos últimos 20 anos, mas a popularidade presidencial subiu. Durante a fase do mensalão, o índice de infelicidade caiu muito (isto é, caíram desemprego e inflação), mas a popularidade cresceu bem menos e chegou a estancar. Também houve descolamento no final do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Desde setembro de 2016, iniciou-se um episódio de descolamento particularmente intenso. Com o desemprego já num nível muito alto (e, portanto, deixando para trás a fase de crescimento mais veloz) e a inflação em queda, o índice de infelicidade caiu fortemente. A impopularidade de Michel Temer nesse período, porém, só fez subir (isto é, a popularidade líquida só fez despencar). Enxertando a última pesquisa CNI/Ibope na série (que utiliza as pesquisas do Datafolha), a popularidade líquida caiu ao nível recorde de -65 pontos porcentuais (pp) agora em julho.

Na visão de Borges, o comportamento das duas curvas sugere que, de maneira geral, quando há discrepância (entre infelicidade e o inverso da popularidade líquida), a popularidade presidencial acaba convergindo para os níveis sugeridos pelo índice de infelicidade. Se essa interpretação estiver correta, seria possível pensar que há uma alguma chance de que Temer, até a eleição do ano que vem (e supondo que permaneça no cargo), escape das catacumbas de impopularidade em que se vê agora e venha a se tornar um presidente menos nocivo a candidatos que a ele estejam associados.

O economista da LCA, entretanto, faz diversas ressalvas e alerta que essa nuance otimista não deve ser levada longe demais. Em primeiro lugar, quando o descolamento entre “infelicidade” (medida como inflação mais desemprego) e impopularidade acontece, é comum que a razão sejam escândalos políticos. À medida que o noticiário sobre esses episódios arrefece, a redução da infelicidade tende a ser traduzir em recuperação da popularidade. Esse parece ter sido o padrão, em grossas linhas, no mensalão.

Acontece que, desta vez, não há sinais de que haverá abrandamento substancial do noticiário de escândalos político envolvendo o governo até as eleições de 2018, por duas razões. Uma delas, já mencionada, é a “máquina” de produzir novos fatos escandalosos da Lava-Jato. A segunda é que, com a aproximação de eleições presidenciais, esse tipo de noticiário tende a ter destaque, quando não seja por ser sistematicamente reavivado pelos adversários do governo.

Adicionalmente, o índice de infelicidade aparentemente já caiu a maior parte do que tinha que cair, na esteira principalmente do vertiginoso mergulho da inflação acumulada em 12 meses desde 2016. Daqui para a frente, não deve haver novos avanços nesta última seara, e é até possível que a inflação em 12 meses suba modestamente. Já o desemprego pode cair até as eleições, mas a maioria das projeções é de que isto, se acontecer, ocorrerá de forma muito gradual.

Finalmente, um presidente tipicamente torna-se reelegível ou um trunfo para o candidato que apoia quando a popularidade líquida atinge 20 pp positivos. Examinando-se as duas séries, o atual índice de infelicidade sugeriria que Temer poderia chegar na melhor das hipóteses a uma popularidade líquida de 5 pp (em vez dos abissais -65pp atuais). Como o índice de infelicidade não deve se mexer muito até as eleições, supor que Temer alcance uma popularidade líquida levemente positiva já é um grande exercício de otimismo e, com este nível, ele estará longe de se tornar uma ajuda para candidatos associados ao atual governo.

Feitas todas essas ressalvas, ainda assim o índice de infelicidade sugere que Temer pode, num cenário otimista, não vir a ser um presidente tão radioativo em 2018 como hoje a maioria dos analistas tende a pensar que ele será. Para que essa redução de impopularidade tenha alguma chance de ocorrer, entretanto, é preciso evitar descarrilar a política econômica que está entregando inflação baixa e a perspectiva de leve melhora do mercado de trabalho. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/7/17