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Regulagem de ambição

Temer sobrevive à segunda votação sobre julgamento pelo Supremo, mas perde cacife político e tempo hábil para reformas. A hora agora é de reajustar a agenda econômica para objetivos críveis e que pavimentem o caminho para uma transição tranquila em 2019.

Fernando Dantas

29 Outubro 2017 | 18h54

Com a sobrevivência de Michel Temer à segunda votação no Congresso para que fosse julgado pelo Supremo, o curto mandato do presidente entra provavelmente em sua fase derradeira, na qual a percepção geral é a de que o presidente já não tem força política para promover reformas na Constituição. Assim, a expectativa de uma reforma da Previdência antes de 2019 praticamente morreu.

No mercado financeiro os preços atuais refletem a expectativa de certa continuidade, até o final de 2018, das principais características do cenário interno e externo – incluindo a possibilidade de um aperto relativo neste último, mas excluindo eventos traumáticos ou de ruptura –, sem reforma da Previdência.

“Não há nada no preço de Previdência, nem mesmo uma reforma enxuta – ninguém acha que isso pode ser votado em um mês e meio, com feriados no meio”, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX.

Assim, se vier alguma coisa, é lucro. Alexandre Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, vai por linha semelhante. A possibilidade de qualquer avanço na agenda da Previdência ainda no governo Temer, que saiu do mapa do mercado, poderia ser o próximo catalisador de melhoras no mercado, levando a bolsa a sair do impasse que a mantém limitada a um teto em torno dos 76 mil pontos, e os juros das NTBs de mais longo prazo a romper o piso que os mantêm em torno de 5%.


Solange acrescenta, como outros eventos que poderiam animar o mercado, o detalhamento (com publicação de uma ou duas MPs) da privatização da Eletrobrás, embora também haja ceticismo em relação a haver tempo para a sua realização; algum item positivo da agenda fiscal que o governo eventualmente “tire da cartola”, como o fim do abono salarial; e o desfecho da nomeação do novo chair do Federal Reserve (Fed, BC americano).

O reapontamento de Janet Yellen, percebida como âncora da atual política monetária relativamente “dovish”, seria positivo para o Brasil e demais emergentes sensíveis à liquidez internacional. Já a possibilidade de nomeação do economista John Taylor, da Universidade de Stanford, visto como mais “hawkish”, poderia ter o efeito contrário, como nota Póvoa. Ele acrescenta, entretanto, que “uma coisa é defender posições mais duras fora do Fed, e outra e implementá-las lá dentro”.

Na verdade, já refletindo a possibilidade de mudança no comando do Fed, além de outros fatores, a rentabilidade dos títulos do Tesouro americano de dez anos já saiu de níveis inferiores a 2,1% no início de setembro para o patamar atual superior a 2,4%. Concomitantemente, e não por coincidência, o dólar subiu de R$ 3,1 para pouco menos de R$ 3,3 no mesmo período.

Voltando à seara doméstica, há ainda o leilão de pré-sal hoje, cujo resultado pode ser um termômetro do apetite externo.

O governo Temer e a equipe econômica têm à frente, portanto, uma “mão” mais fraca para jogar até o fim do atual mandato, mas da qual terão que tirar o máximo proveito. A aproximação com o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), presidente da Câmara, para a montagem de uma agenda legislativa mínima realista, que continue a empurrar o País – ainda que de forma mais fraca e incompleta – na direção reformista parece ser o melhor caminho.

Por outro lado, prosseguir mecanicamente defendendo uma agenda que se tornou impossível, como uma ampla e profunda reforma da Previdência, não deve ajudar. O momento é de juntar os cacos, redimensionar a ambição e propor avanços menores, mas relevantes, que o governo consiga efetivamente entregar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/10/17, sexta-feira.