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Surpresa boa na inflação?

Qual a chance de o IPCA em 2018 ser ainda mais baixo do que a estimativa bem comportada que o mercado tem para o índice oficial de inflação?

Fernando Dantas

01 Dezembro 2017 | 17h29

Será que as surpresas positivas na inflação (como a mais recente, do IPCA-15 de 0,32% em novembro) vão se estender ao ano eleitoral de 2018? Esta é uma pergunta relevante, porque já se acumulam no horizonte algumas nuvens carregadas sobre a paisagem da economia brasileira para o próximo ano: elevação de juros nos Estados Unidos, grande incerteza sobre o destino da atual agenda econômica durante a campanha eleitoral e no próximo governo e uma nova rodada de apreensões climáticas ligadas ao abastecimento de energia.

A maioria dos analistas vê 2018 como um ano tranquilo para a inflação. A última previsão mediana do mercado no Boletim Focus é de um IPCA de 4,03% no próximo ano, bem abaixo da meta de 4,5%.

É um número que dá conforto ao BC para levar a Selic a 7% (hoje está em 7,5%) e mantê-la nesse nível. Há até quem veja ela caindo um pouco mais, quem sabe para 6,75% ou 6,5%, mas esta aposta perdeu força com sinais um pouco mais incertos do mercado externo e o problema fiscal não resolvido internamente (não se alimenta mais grande expectativa em relação à reforma da Previdência – se sair alguma coisa, deve ser bem menos que o necessário, na visão de vários analistas).

Uma surpresa inflacionária positiva, contudo, como um IPCA em 2018 dando sinais de que pode ficar significativamente abaixo de 4%, poderia ser um suporte a mais para a difícil travessia da equipe econômica até 2019.

Quem vislumbra essa possibilidade é o economista Carlos Thadeu Filho, que está trabalhando com projeções inflacionárias no Ibre/FGV. A projeção de IPCA para 2018, por enquanto, é de 3,9%, mas ele vê “riscos positivos” e acha que ele deve baixar.

Thadeu Filho diz que a previsão de IPCA fechado de 3,9% já contempla “o pior cenário em termos de energia”, que joga a alta dos preços administrados em 2018 para perto de 7%. Dessa forma, ele acha mais provável que essa projeção dos administrados diminua do que aumente ao longo do ano que vem.

Na alimentação no domicílio, o economista tem uma visão otimista, quando comparada às expectativas mais gerais do mercado, que antevê uma reversão mais pronunciada depois do choque deflacionário surpreendentemente intenso de 2017. O sócio-fundador da gestora Canepa, Alexandre Pavan Póvoa, por exemplo, nota que o choque de alimentos foi muito forte em 2017, mas espera uma volta a um padrão mais normal em 2018, o que contribuirá para levar o IPCA fechado a 4,2%, segundo sua projeção.

Thadeu Filho, por outro lado, tem uma previsão de inflação dos alimentos no domicílio de apenas 1% em 2018 (que está embutida na projeção de IPCA de 3,9%), e não considera impossível que haja uma nova deflação nesse item.

Ele nota que a safra, embora recue um pouco em relação ao recorde anterior, ainda é bastante boa e os estoques estão em níveis bem-comportados.

Mas seu principal argumento é de que “a queda dos alimentos ainda não se dissipou em toda a cadeia”. Por exemplo, os baixos preços dos grãos não se transmitiram de forma completa ao mercado de proteínas, cujos preços ainda têm espaço para baixar em 2018, na sua análise.

No caso dos serviços, Thadeu Filho vê o fator positivo da inércia da baixa inflação de 2017, algo que também é enfatizado por Póvoa. O economista do Ibre/FGV também aponta que o INPC muito baixo em 2017 vai resultar num ajuste bem pequeno do salário mínimo no próximo ano, influenciando toda uma gama de serviços. Ele também vê chances de diminuir a sua projeção da inflação de serviços em 2018, o que reduziria ainda mais o IPCA fechado, a partir da previsão atual de 3,9%. Na inflação de bens exclusive alimentos, finalmente, a sua projeção para o próximo ano está em 1,55%. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/11/17, sexta-feira.