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Temer e o risco político

Cientista político Fernando Abrucio se preocupa com consequências eleitorais em 2018 de aprofundamento do descrédito do sistema político em cenário de sobrevivência do governo Temer.

Fernando Dantas

21 Junho 2017 | 11h02

O maior risco da permanência de Michel Temer na presidência é político, e não econômico, para Fernando Abrucio, cientista político da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas (EAESP/FGV) em São Paulo.

Esse risco político, por sua vez, pode se traduzir em sérios danos econômicos de médio e longo prazo, a partir de 2018, em sua opinião. Adicionalmente, Abrucio considera relativamente alta (mas não garantida) a probabilidade de Temer resistir até o final do seu mandato, dado que “este grupo no poder é o mais profissional da política brasileira”.

O cientista político nota que o atual presidente não está defendendo seu cargo sozinho, mas o faz em coordenação com “centenas de pessoas que estão no poder há muito tempo, e que sabem que, se Temer cair, elas podem cair juntas”.

Usando um termo da política mineira, Abrucio diz que profissionais da política como Romero Jucá, Moreira Franco e Eliseu Padilha sabem que seria desastroso para eles “ficar no sereno”. Já o ministro da Justiça, Torquato Jardim, atua de forma mais concentrada e eficaz como advogado de Temer que seus antecessores, inclusive no governo de Dilma Rousseff.

“É um grupo muito mais profissional que o de Dilma, que sabe qual é o objetivo e está focado nele, e que tem uma grande capacidade de dividir os outros para governar”, resume o pesquisador.

A sobrevivência de Temer, entretanto, vai agravar ainda mais o descrédito da política junto à população, o que, segundo Abrucio, já está sendo captado nas pesquisas de opinião.

“É assustador, e dá ainda mais força para quem se apresentar em 2018 como antipolítico”, analisa o cientista político.

Ele observa que, ao contrário dos Estados Unidos, em que o setor público e a sociedade têm bastante autonomia em relação ao poder político, neutralizando parcialmente os estragos causados por um demagogo como Donald Trump, “o Brasil precisa reconstruir a política, e não destruí-la”. E a reforma da política, para Abrucio, não virá de alguém com a bandeira da antipolítica.

O pesquisador se diz mais preocupado em “construir uma visão de longo prazo sobre a Previdência do que aprovar a reforma agora”. Assim, o risco de que o aprofundamento do descrédito político leve a uma saída “a Berlusconi” para a atual crise brasileira, e inviabilize qualquer agenda racional a partir de 2018, é a seu ver o que deveria estar de fato preocupando o setor privado no momento.

Abrucio nota ainda que os desdobramentos da atual crise dependem de “muitas pedras desconhecidas no caminho” sobre o teor e a abrangência da atual safra de denúncias, que atinge o presidente da República. Ele pensa que essa grande incerteza explica parcialmente a hesitação do PSDB sobre ficar no governo ou deixá-lo, para além da velha tradição de indecisão do partido.

Ainda assim, Abrucio considera que os tucanos estão incorrendo em alto risco de contaminar-se pela “sarneyzação” do governo Temer. “O PSDB ficou 13, 14 anos na oposição e hoje parece que está há 30 anos no governo, é uma sensação absurda”, ele diz.

Dessa forma, o perigo é que o PSDB aja para preservar a aliança com o PMDB e os muitos minutos de propaganda eleitoral gratuita em 2018, mas acabe como Ulysses Guimarães em 1989, com muito tempo de TV e votação minúscula.

“A sensação é de que quem estiver grudado em Temer cairá em descrédito com a sociedade”, ele diz.

Em termos do que esperar de um governo Temer que consiga sobreviver, Abrucio vê como possível a aprovação da reforma trabalhista, que é infraconstitucional, e no máximo a idade mínima na Previdência.

“Mas governo não é só reforma, as políticas públicas estão muito fragilizadas com o grau baixíssimo de legitimidade e capacidade de operacionalização”, ele conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/6/17, segunda-feira.