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Usando o capital de credibilidade

Aceitação da piora das metas fiscais (deste ano até 2020) pelos investidores, mercado e agências de rating é baseada na percepção de que o governo e a equipe econômica vem buscando seriamente o ajuste das contas públicas dentro de circunstâncias extremamente difícil. A isso soma-se um cenário internacional muito favorável ao governo. O risco é que um desses dois fatores - ou ambos - saia do cenário.

Fernando Dantas

17 Agosto 2017 | 13h01

A equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, surfa a credibilidade adquirida com o bom trabalho dentro das circunstâncias possíveis. Assim, o anúncio esta semana da piora da trajetória de metas de resultado primário deste ano até 2020 não provocou incômodo nos mercados e, aparentemente, nas agências de rating.

Não há dúvida que o Brasil continua encalacrado numa situação fiscal gravíssima, que ainda se mantém sistematicamente produzindo resultados piores do que as estimativas oficiais prévias – o que força mudanças como a de ontem. Se há tolerância na valorização dos ativos nacionais, isso se deve à mudança também sistemática do cenário internacional para melhor, e à seriedade e a garra que o time econômico brasileiro demonstra em lidar com a crise fiscal.

Esse último fator poderia parecer trivial se não fosse pelo fato de que o ajuste vai na contracorrente de tudo o que no Brasil se considera necessário politicamente para estimular a popularidade presidencial. Que Meirelles consiga implementar parte razoável da sua agenda quando Michel Temer debate-se com os piores níveis de popularidade do período pós-democratização é, portanto, um feito não desprezível.

E muito provavelmente o atual presidente está correto em rejeitar até agora a visão política convencional de que um pouco de populismo poderia se traduzir em um pouco de popularidade: dada a catástrofe estrutural e conjuntural legada pela nova matriz econômica, o melhor cenário possível para Temer é sobreviver politicamente até o fim de 2018 com uma economia em leve recuperação, e isto depende decisivamente de manter o pacto de confiança entre a equipe econômica e os investidores e o mercado.


Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, considera que a reação positiva do mercado ao anúncio da revisão das metas pode ter se dado em parte pelo efeito “tirar o bode da sala”. Ela nota que, como havia informações sobre a “ala política do governo” estar lutando por meta de déficit próxima de R$ 180 bilhões, o anúncio de R$ 159 bilhões (governo central) para este ano acabou soando como uma vitória de Meirelles. A meta anunciada para 2018 também foi de R$ 159 bilhões.

Alexandre Ázara, economista chefe da Mauá Capital, em São Paulo, considerou a nova meta de 2017 realista e adequada, mas, no caso da de 2018, diz que “a revisão foi grande”. Na sua visão, é possível que pressões do TCU contrárias ao governo contar com fartas receitas extraordinárias para projetar seus resultados estejam por detrás da nova meta do próximo ano. Assim, na sua visão, haveria chances até de que o resultado efetivo de 2018 seja melhor do que o déficit de R$ 159 bilhões (isto é, as receitas extraordinárias podem acabar sendo maiores que o previsto no ano que vem).

Já Solange acha isso possível, mas ressalva que o contrário também não pode ser descartado. A realização das receitas extraordinárias tem componentes necessariamente difíceis de prever. A economista vê com preocupação uma lentidão generalizada na agenda de concessões, que pode afetar as receitas mesmo em 2018.

Nos próximos dias, semanas e meses, o mercado e as agendas de rating continuarão a esquadrinhar os compromissos fiscais do governo e os resultados efetivos, em buscas de mais sinais de deterioração ou de qualquer luz no fim do túnel. No entanto, uma parte importante do que estará sendo continuamente avaliado é o grau de compromisso político do Executivo com a regeneração das contas públicas brasileiras. Qualquer vacilo quanto a este último ponto pode ser fatal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/8/17, quarta-feira.