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A “Lei Pendular” e o novo encanto com a Argentina

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José Paulo Kupfer

22 Janeiro 2016 | 13h11

Dor nos joelhos e nas costas não são as únicas coisas ruins da idade. Com a idade também fica muito tedioso constatar o tempo todo que muitas coisas se repetem de um jeito monótono e enfadonho — nem sempre como farsa, mas muitas vezes como tal. Um exemplo desses dias é o oba-oba, reportado pelos colegas que estão em Davos, na Suíça, cobrindo o convescote anual do Forum Econômico Mundial, em torno do novo presidente da Argentina, Mauricio Macri.

A propósito desse tipo de evento, faz uns 40 anos, eu mesmo inventei uma lei histórico-econômica que, até hoje, com todas as mudanças na economia global, continua valendo firme e forte. Trata-se da “Lei Pendular da Preferência dos Mercados na América Latina”. Reza a lei que Brasil, Argentina e México, cada um a seu tempo e em rodízio, desempenhará o papel de “queridinho”, “demônio” e “limbo” do mercado.

A Argentina está dando a parecer que, de demônio recente, com calotes, processos em Nova York, inflação descontrolada e economia cambaleante, de repente, quase num passe de mágica, está se tornando de novo a “queridinha” do momento. Já o Brasil, o “queridinho” dos anos 2000, virou “demônio”. E o México, coitado, depois de ensaiar ser o “queridinho” dos anos 2010, acabou no “limbo”.

Vejam o que chega de Davos: a Argentina é a estrela latino-americana dos representantes das finanças e dos mercados globais, enquanto o pobre Brasil se esgueira desprezado pelos cantos e o México nem parece ter dado as caras.

Evidentemente, nada disso tem sustentação na realidade mais dura da economia e não passa de manifestação ideológica. Não se quer, é bom avisar logo,  dizer que a economia brasileira está uma beleza — ao contrário, é evidente que se encontra numa grande e grave encalacrada. Mas não custa lembrar que a Argentina, na época da conversibilidade maluca dos governos de Carlos Menem, também foi a “queridinha” dos mercados. Visto de hoje, difícil saber se aquilo foi só ridículo.

É fácil explicar esse movimento repetitivo. O mercado, por natureza, só enxerga o curto prazo. Mais do que isso, no mercado, em quase todas as circunstâncias, ganha quem chega na frente porque, sabendo a hora certa, basta desfazer a posição e continuar no lucro. Entenderam? Não precisa analisar nem considerar todas as possibilidades e riscos. Basta entrar cedo e sair cedo. Os “investidores” vivem dos incautos e ingênuos que embarcam nas suas conversas moles, entrando tarde e saindo tarde.

Comprar a Argentina, por exemplo, na frente do outros, apenas com base no perfil liberal do novo presidente, é o truque mais velho do mundo. O valor da Argentina já subiu e, se a coisa, lá na frente, desandar, vai ganhar quem comprou mais barato e vendeu um pouco antes de a manada perceber que desandou.

Daqui deste posto de observação em que doem os joelhos e as costas, a sugestão é a de não embarcar tão rápido na novíssima onda.

 

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