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BC acelera o passo no corte dos juros, mas efeito positivo não deve ser imediato

José Paulo Kupfer

11 Janeiro 2017 | 19h42

Em sintonia com os desejos expressos pela maioria dos representantes do mercado financeiro, porém mais agressivo do que essa mesma maioria imaginava que seria a sua decisão, o Comitê de Política Monetária (Copom) acelerou o passo do atual ciclo de cortes da taxa básica de juros e decidiu reduzi-la em 0,75 ponto, de 13,75% ao ano para 13%.

Corte tão intenso na taxa Selic não ocorria desde os primeiros meses de 2009, quando o Copom, sob a presidência do atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, deu início a uma corrida para corrigir o erro de elevar os juros básicos, em setembro de 2008, às vésperas da quebra do banco Lehmann Brothers, que deu origem ao grande crash de que a economia mundial ainda hoje se ressente.

Condições objetivas da economia respaldam a decisão unânime dos diretores do Banco Central. As taxas de inflação estão em queda consistente, devendo fechar 2017, de acordo com as projeções, bem próximas do centro da meta, de 4,5% no ano. O resultado de 2016, divulgado também na manhã desta quarta-feira, pelo IBGE, já apontara a surpresa de uma alta do IPCA de 6,29%, no acumulado do ano, abaixo do texto da meta, depois de uma elevação de 10,67%, em 2015.

A uma atividade econômica ainda muito fraca — mais fraca até do que projetado recentemente — e com poucas perspectivas de recuperação firme a médio prazo se juntaram a aceleração na tendência de queda da inflação — inclusive pela própria maior fraqueza da economia –, e a percepção de que está em curso um ajuste fiscal também mais rápido para justificar a decisão de antecipar a aceleração no corte da Selic.

Embora seja um óbvio sinal positivo, as consequências da redução mais intensa dos juros básicos para a retomada da economia não devem aparecer em prazo muito curto. A indicação é de alívio às famílias e empresas endividadas às voltas com um lento e custoso processo de desalavancagem — o Bradesco, por exemplo, numa combinação de marketing e política, já anunciou redução nas taxas de seus financiamentos, mas ainda assim a taxa máxima do cheque especial, que caiu de 13,55% ao mês para 13,49%, “apenas” 350% ao ano, permanece nas alturas. Mas…

Mas é preciso esperar para ver como o mercado reagirá e quando, de fato, seus efeitos na eliminação do estado de insolvência vigente se farão sentir. A relação entre redução dos juros básicos e impulso da atividade econômica é positiva, mas normalmente defasada no tempo em alguns meses. Além disso, o desemprego, ainda com previsão de alta em 2017, e a acumulação tanto de estoques quanto de capacidade ociosa na economia tendem a manter obstruído o canal do crédito.

Sem outras interferências — e a situação internacional, como, aliás, destacado no comunicado divulgado ao fim do Copom desta quarta-feira, em especial a possível reação do Federal Reserve, banco central americano, às ações de expansionismo fiscal prometidas pelo futuro presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é ponto de alta incerteza —, o reingresso da economia em terreno positivo só deve dar o ar da graça, timidamente, no segundo semestre. Auxiliado e reforçado por novos cortes na taxa básica até pode fechar 2017 nas vizinhanças de 10% ao ano.

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