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Bons resultados por linhas tortas no setor externo

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José Paulo Kupfer

26 Janeiro 2016 | 20h16

Em relação ao setor externo brasileiro, cujas contas fechadas de 2015 foram apresentadas nesta terça-feira pelo Banco Central, a primeira observação é a de que os resultados foram surpreendentes e positivos. O ajuste registrado, quando se comparam os números do ano passado com os de 2014, foi forte e rápido.

A balança em transações correntes, que vinha numa tendência explosiva, tendo alcançado um déficit superior a US$ 100 bilhões, em 2014, o equivalente a perigosos 4,3% do PIB, encerrou 2015 com déficit inferior a US$ 60 bilhões, o que representa mais confortáveis 3,3% do PIB. Isso se deveu, sobretudo, à formação de um saldo comercial positivo elevado, próximo a US$ 18 bilhões, mas também contou com a contribuição de uma redução no déficit nas contas de serviços e rendas, que recuou de US$ 11 bilhões, em 2014, para US$ 9 bilhões, 2015. Além disso, o volume de Investimento Direto no País (IDP), no ano passado, de US$ 75 bilhões, voltou a financiar integralmente o déficit em transações correntes e sua composição melhorou, com um aumento da parcela representada por participações no capital de 60% do total, em 2014, para 75%, em 2015.

Tais resultados foram obtidos – e esta é a segundo observação necessária – a custa de uma redução expressiva na corrente de comércio brasileira em 2015, quando comparados com 2014. Tanto exportações quanto importações recuaram e o que produziu os saltos positivos foi o fato de que as importações caíram mais do que as exportações. Estas somaram pouco mais de US$ 190 bilhões no ano, com queda de 14%, enquanto as importações atingiram US$ 170 bilhões, expressando recuo de quase 25% sobre o ano anterior. Com isso, a corrente de comércio somou US$ 362,5 bilhões, encolhendo 20% em comparação com 2014.

Esses números se devem à combinação de uma forte desvalorização da taxa de câmbio, da ordem de 50% no ano passado, com a igualmente forte recessão na atividade econômica, expressa por uma contração do PIB em torno de 3,5%, ambos os fatores aliados ao desaquecimento do comércio internacional, que afetou, negativamente, em especial os preços nos mercados de commodities, dos quais o Brasil é importante participante. Para entender o que tal situação representou para o setor externo brasileiro, basta notar que as exportações de soja, em relação a 2014, tiveram um aumento de quase 20% em volume, mas amargaram receitas 10% menores. O mesmo se deu com minério de ferro, petróleo, carne de frango e outros produtos básicos de peso alto na pauta de exportação.

De todo modo, escrevendo por linhas tortas, a área externa traz algum alívio para a combalida economia brasileira e opera com um importante fator de descompressão do difícil quadro econômico. Lado historicamente frágil, responsável por recorrentes colapsos econômicos no Brasil, o setor externo, nesta crise, se impõe como elemento de distensão e de relevante diferenciação, em relação a crises anteriores, o que é demonstrado pela ausência de movimentos de fuga de capitais.

Trata-se de um quadro que, felizmente, deve se repetir, com ainda mais intensidade em 2016, pois recessão e câmbio desvalorizado deverão continuar. As projeções para este ano, de fato, são de que o saldo comercial poderá superar US$ 30 bilhões e o déficit em transações correntes recuará para US$ 45 bilhões, o equivalente a 2,5% do PIB.

 

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