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Cachorro que morde o próprio rabo

José Paulo Kupfer

10 junho 2009 | 21:01

Não precisou nem um minuto depois do anúncio do desempenho da economia, no primeiro trimestre, para os juros futuros subirem. Era o mercado passando ao Banco Central a mensagem de que o corte na taxa básica deveria ser, como sempre, mais modesto. O fato de o PIB não ter recuado tanto quanto as projeções do próprio mercado era o argumento de que precisava. Argumento frágil que, felizmente, não comoveu a maioria dos sábios do Comitê de Política Monetária (Copom).

Menos mal o corte de 1 ponto percentual. A inesperada resistência da economia a um desaquecimento mais profundo fez crescerem, a partir de terça-feira, quando saíram os números do IBGE, as apostas numa redução de apenas 0,75 ponto percentual. A lógica dessa moderação tem origem num raciocínio raso, que finge projetar o futuro, mas se prende ao passado.

Junto com a notícia de que a economia não recuara os 1,5% esperados no primeiro trimestre, mas “apenas” 0,8%, veio a informação de que o investimento (formação bruta de capital fixo), naquele trimestre, havia desabado mais de 12%, no maior mergulho da série histórica atual das contas nacionais. Era, este sim, motivo para derrubar os juros sem dó nem piedade. Mas, na “ciência econômica” do mercado, tratava-se, exatamente, do inverso.

Para essa estranha “ciência”, que vive à procura das “taxas naturais” – aquelas que não provocam aceleração da inflação –, a queda livre dos investimentos indicaria uma redução do “produto potencial”, uma quiromancia econômica que pretende estabelecer o nível máximo de crescimento que não produz aceleração inflacionária. Com um PIB potencial reduzido, cortar juros e, em conseqüência, estimular a atividade econômica seria a receita inevitável para a volta, no futuro, da inflação.

É uma teoria que se alimenta dos factóides que ela mesma fabrica. Funciona mais ou menos assim: juros altos dificultam os investimentos e sem investimentos o produto potencial cai, justificando juros altos. Um cachorro que morde o próprio rabo.

As decisões de investimento não são movidas apenas a juros baixos. Em busca da taxa de retorno ótima, o empreendedor avalia o potencial do mercado consumidor e as condições de concorrência. Mas, ao lado desses fatores críticos, o custo do dinheiro, obviamente, exerce também relevante.

Se isso for verdade, era hora de ser ainda mais agressivo no corte dos juros. Afinal, a recuperação que começou a se esboçar no segundo trimestre, avançará até onde a capacidade instalada oferecer espaços ociosos. Os dados mais recentes informam que, depois de cair quase 25% no acumulado de abril e maio, o setor de máquinas e equipamentos continuou patinando em junho. Mau sinal. E um indicativo forte – não inteiramente levado em conta pelos sábios do Copom.

Sem uma vigorosa recuperação dos investimentos, a economia vai bater no teto e não demora muito.