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Ciclo de cortes nos juros mais perto do fim

José Paulo Kupfer

07 Setembro 2017 | 12h21

Calhou que o calendário de divulgação da variação do IPCA de agosto tenha coincidido com a data da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que decidiria a taxa básica de juros (taxa Selic) para os próximos 45 dias, nesta quarta-feira. Não havia nenhuma dúvida de que os juros seriam novamente cortados em 1 ponto, recuando para 8,25% ao ano, mas os números da inflação, muito baixos e abaixo das expectativas do mercado, acumulando meros 2,6% em 12 meses, acabaram sancionando a decisão e abrindo espaço para a continuidade mais agressiva do ciclo de cortes da Selic.

Desde o Copom de julho, o BC construiu a expectativa de que manteria essa  atitude agressiva em relação ao corte dos juros, apesar das incertezas políticas causadas pela denúncia de corrupção passiva da Procuradoria Geral da Repúplica contra o presidente Michel Temer e das dificuldades daí decorrentes para a aprovação de reformas, em especial a da Previdência, e da deterioração do quadro fiscal em geral. Diante do ambiente enevoado, não eram muito claras as razões objetivas que animavam o BC a manter o pé no acelerador.

Pode ter acertado quem imaginou que essa agressividade, mesmo diante das incertezas e do quadro fiscal negativo, estava em linha com a batalha pela aprovação da Taxa de Longo Prazo (TLP), na qual os diretores do BC se envolveram de peito aberto — a ponto de alguns deles terem quebrado “o período de silêncio”, que antecede e sucede as reuniões do Comitê de Política  Monetária (Copom), para acompanhar, na terça-feira, a votação da MP da taxa, diretamente do plenário do Senado Federal.

Em termos técnicos, a tendência já era para moderar o ritmo de redução da taxa de juros. No comunicado emitido ao fim da reunião, não sem razão, o Copom deu sinais claros de que pretenderia começar a frear os cortes, mas os analistas especializados em traduzir as comunicações do BC não convergiram para um consenso. A maioria passou a apostar em um corte de 0,75 ponto em outubro, havendo quem considerasse mais plausível uma redução de 0,5 ponto e uns poucos que raciocinaram, talvez mais de olho nas exigências políticas do momento, com a possibilidade de uma nova poda de 1 ponto.


Também ainda não se formou unanimidade a respeito de quando e em que ponto o atual ciclo de cortes na taxa básica se encerrará. De acordo com as projeções atualizadas, pode ser que em 7,5%, 7,25%, 7% ou até mesmo 6,5%, entre dezembro de 2017 e março de 2018. Uma convergência maior se dá na avaliação de que a taxa básica ficará estabilizada ao longo de 2018, ano de eleição e de muitas incertezas.

Com a surpresa baixista do IPCA de agosto — marcada, particularmente, por nova queda na alta de preços de alimentos —, os modelos do BC devem apontar agora para o “risco” de que a inflação possa encerrar o ano muito próximo ou mesmo abaixo de 3%, piso do intervalo do regime de metas. Esta possibilidade — que indicaria um freio — competirá com o ainda vasto espaço de capacidade ociosa na economia para ser preenchido sem pressionar os preços — sinalizador de manutenção de ritmo acelerado —,  na determinação da trajetória dos juros básicos, daqui até o primeiro trimestre de 2018.

A resultante desses dois vetores é de encerramento gradual, mas em prazo relativamente curto, como, aliás, indicado pelo próprio BC, do atual e acentuado ciclo de cortes da Selic.