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Copom não arriscou mais do que o necessário

José Paulo Kupfer

12 Abril 2017 | 20h16

Um grupo, pequeno, mais afoito, desejaria um corte de 1,5 ponto na taxa básica de juros. Outro, maior, achava que a dificuldade de retomada da economia e a ampla difusão baixista dos preços dos alimentos sugeriam uma redução de 1,25 ponto. Mas o Comitê de Política Monetária (Copom), fez, no início da noite desta quarta-feira, o que a grande maioria dos analistas considerava que seria feito: a taxa Selic caiu 1 ponto, de 12,25% ao ano para 11,25%.

Não se pode dizer que, desta vez, o Copom tenha sido cauteloso demais na decisão, embora seja certo que não escapará de algumas acusações de ter deixado passar mais uma oportunidade de acelerar o passo e recuperar o tempo perdido com os cortes de 0,25 ponto — esses sim excessivamente cautelosos — de outubro e novembro de 2016. Cortes nessa proporção de 1 ponto não são tão corriqueiros e acima disso, como alguns queriam, muito incomuns, restritos a períodos em que os juros básicos andavam acima de 20%, quase 15 anos atrás.

O teor do comunicado divulgado no encerramento da reunião do Copom já leva os analistas a projetar mais um corte de 1 ponto, em fins de maio. A expectativa geral é de que a poda da taxa básica avance até 9% ou 8,5%, em outubro, quando se imagina que o atual ciclo de cortes na taxa Selic se encerre. Esta perspectiva foi realçada com a afirmação, no comunicado, de que a intensidade e a extensão do ciclo dependerão das estimativas dos juros estruturais da economia e da situação da atividade econômica.

Fáceis de definir — são aqueles cujo nível não interfere nem na inflação nem no comportamento da economia —, os juros estruturais são difíceis de determinar. Não são visíveis a olho nu e dependem de hipóteses para serem determinados. Produtividade da economia, ambiente de negócios, perspectivas fiscais e eficiência na alocação de recursos são fatores que influenciam a formação dos juros estruturais que o Copom afirma perseguir. No momento, conforme estimativas correntes, os juros estruturais na economia brasileira estariam em torno de 5% reais ao ano, mas eles podem encolher ou subir conforme a evolução dessas variáveis e também da trajetória da economia internacional. Levando em consideração que a inflação pode descer, em meados deste ano, até menos de 4%, devendo se acomodar nas vizinhanças de 4% ou 4,5% na virada para 2018, um juro nominal de 9% ou pouco menos permitiria ao Copom atingir o alvo.

Menos cauteloso do que os diretores do Banco Central, reunidos no Copom, o presidente Temer comemorou a redução dos juros básicos. “A inflação em queda e a redução da Selic vão estimular a economia, a produção industrial e o consumo interno”, escreveu Temer em seu Twitter. Essa é, de fato, a teoria que sustenta o efeito de quedas nas taxas de juros, em períodos de recuo da inflação.

Na prática, porém, nem sempre a teoria se confirma. Em ambientes  econômicos marcados por alto endividamento o circuito virtuoso lembrado por Temer pode não se verificar. É o que se vê há décadas no Japão, cuja economia se encontra praticamente estagnada, apesar dos juros negativos, e, desde a grande crise global de 2008, na Europa. No caso brasileiro atual, não só o quadro mostra famílias e empresas ainda às voltas com dificuldades para pagar suas dívidas como vigoram taxas de juros efetivas elevadas, em razão dos amplos spreads que os bancos conseguem cobrar.

Considerando essa realidade, pode-se concluir que o Copom não arriscou mais do que o necessário na decisão desta quarta-feira.

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