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Dr. Antonio

José Paulo Kupfer

28 agosto 2014 | 13:34

Histórias de repórter e de uma fonte de informação muito especial

Muitos colegas jornalistas contaram histórias de suas relações com o Dr. Antonio Ermírio. Eu também tenho as minhas e, no que puderam me ajudar a desenhar o perfil dele, não diferem muito.

Acho que tive o privilégio de tê-lo como fonte de informação, mas de um jeito diferente de outras fontes com as quais mantive relacionamento profissional estreito. Nunca tive acesso aos telefones pessoais dele e, se me lembro, raramente falamos por telefone.

Quando queria falar com Antonio Ermírio, tinha de passar pela D. Valéria, secretária e, digamos, assessoria de imprensa. Mas ela sabia que o Dr. Antonio me colocava num lugar diferenciado na massa dos repórteres, um lugar em que reinava absoluto o querido amigo Miltinho Rocha Filho, e poucas vezes não encontrou um espaço na agenda do chefe para mim.

Essas conversas se davam no escritório na sede da Votorantim, que ocupava o ex-Hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal, no centro de São Paulo. Não me lembro em que andar ficava esse escritório, mas está vivo na memória a sala enorme, com poucos móveis e uma mesa grande num dos lados. O dr. Antonio ficava atrás de uma pilha de cadernos de folhas perfuradas, todos entupidos de anotações à mão, que tomava a parte frontal da mesa, formando uma muralha de equilíbrio precário. Uma régua de cálculo, que era usada com destreza, já no tempo das calculadoras eletrônicas, reforçava o ar antiquado do conjunto.

Meu contato com o Dr. Antonio começou com uma ação calculada minha. Eram fins dos anos 70 e eu trabalhava na Economia da “Veja”, então comandada pelo querido e inesquecível amigo Emilio Matsumoto. Antonio Ermírio já era um empresário mítico, mas o mito ainda não resolvera se abrir para o mundo político, fechando-se ao contato com jornalistas como se fecham os mitos. Para jornalistas, naquele tempo, o líder empresarial industrialista, nacionalista e visceralmente avesso ao setor financeiro ainda era quase inacessível. Estabelecer uma relação profissional fonte-jornalista com o Dr. Antonio passou a ser um desafio para mim.

Fazia parte do mito que se formava a característica de trabalhar duro e dar valor a quem trabalhasse duro. Meu plano foi simples: me postei no portão da casa do empresário, uma mansão que ocupava o centro de um terreno enorme, na área de mansões do Joquei Clube, às cinco e meia da manhã, para abordá-lo quando saísse. Ele já me conhecia de abordagens rápidas em eventos de empresários e, quando apareceu, por volta das 6h30, no banco do carona, ao lado do motorista, num Ford Belina verde, parou o carro: “o que você faz aí?”, perguntou. Respondi: “quero conversar com o senhor”. Antonio Ermírio apontou o banco de trás: “entra aí”. Fomos conversando até a Votorantim. Ele me levou ao escritório. Subimos no elevador, ele no meio dos funcionários, conversando amistosamente com todos.

Das muitas conversas que tivemos, naquele escritório, daí em diante, uma ficou inesquecível. Não me lembro o que levou o Dr. Antonio a se levantar da mesa de trabalho e me levar até uma sala contígua. Pegou no meu braço e apontou para um funcionário, numa mesa limpa. O rapaz manipulava uma calculadora de mesa simples e fazia anotações. “Esse é o meu funcionário mais produtivo em relação ao salário dele”, disse Antonio Ermírio. “Ele confere se os bancos estão cobrando mesmo os juros combinados nos contratos”…

Ironias. Antonio Ermírio ainda estava ativo quando o grupo Votorantim enveredou pelo setor financeiro. Mas, felizmente, já não estava tão presente quando o Banco Votorantim se meteu nas enrascadas que terminaram com sua nunca muito bem explicada fusão com o Banco do Brasil.