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Estagnação tira inflação e Copom do centro do palco

José Paulo Kupfer

04 setembro 2014 | 11:46

Nunca uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) chamou tão pouca atenção quanto a de ontem, desde que, em janeiro de 1999, no atropelo da mudança de regime cambial, foi implantado o sistema de metas de inflação. O colegiado não só manteve os juros básicos em 11% ao ano, como esperavam dez entre dez analistas, mas reforçou, com a repetição dos termos de um comunicado do qual apenas foi retirada a expressão “neste momento”, a indicação de que não pretende mexer tão cedo na taxa Selic.

Não é difícil entender por que o Copom de setembro quase passou em branco e a taxa Selic permanecerá onde está por um bom tempo. Desde o segundo trimestre, as altas de preço deixaram de ser as protagonistas da conjuntura econômica, mesmo com sua permanência, no acumulado em 12 meses, na borda ou mesmo acima do teto da meta. Inflação – e, em consequência, o Copom – deu lugar ao comportamento do nível de atividades, já então em clara trajetória de queda, rumo à estagnação do presente.

A inflação saiu de certa forma do foco dos analistas não só porque, numa economia em processo de evidente esfriamento, as pressões inflacionárias são naturalmente reduzidas. O fim do impacto produzido pelo forte choque de oferta de alimentos, que puxou a inflação nos primeiros meses do ano, colaborou para descomprimir os índices de preços.

Desde que estacionou os juros em 11% ao ano, na reunião de maio deste ano, o Copom repete que os efeitos da política monetária são cumulativos e defasados no tempo. Parte da estagnação da economia, agora nítida, tem relação com a escalada acelerada dos juros básicos, entre abril de 2013 e abril de 2014. Os efeitos na atividade econômica dessa relativamente forte contração monetária ainda não se encerraram, e a tentativa do Banco Central em mitigar a descida da ladeira da economia com a medidas de estímulo ao crédito tem tudo a ver com o atual quadro de baixo crescimento.

Tanto isso é verdade que os analistas de mercado começaram, ainda em junho, a considerar a possibilidade de um corte na Selic. A onda que se formou nesse direção ganhou tal proporção que o Copom, na ata da reunião de julho, viu necessidade de introduzir um raro parágrafo, registrando em bom e claro português a decisão, reafirmada agora em setembro, de não alterar o nível da Selic por um período mais longo de tempo.