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Fator externo

José Paulo Kupfer

05 Março 2013 | 11h25

Os números altamente frustrantes do desempenho econômico brasileiro, em 2012, são ainda mais decepcionantes quando comparados aos de outras economias, no mesmo período. Excetuados países da encalacrada zona do euro, o resto do mundo, aí incluídos os claudicantes Estados Unidos e os vizinhos latino-americanos, sem falar nos demais integrantes dos Brics, cresceu mais no ano passado.

Esse fato incontestável leva à natural conclusão de que os entraves à expansão econômica, no Brasil, apesar da ladainha irritantemente recorrente do ministro da Fazenda, Guido Mantega em sentido contrário, dizem respeito a problemas domésticos e não se devem às graves dificuldades enfrentadas pela economia internacional. Está claro que nem uma avestruz de caricatura concordaria com o ministro. Mas, até para alargar o entendimento das mazelas “made in Brazil”, não se pode desprezar os impactos da crise internacional sobre ela.

Existe consenso de que a chave capaz de abrir a porta de uma retomada mais acelerada e sustentável do crescimento, na economia brasileira, é o investimento. A expansão da capacidade de produção e da oferta de serviços propiciariam a indispensável elevação da produtividade e, como consequência, avanços na competitividade geral. Se todos os termos da equação encaixarem, a recuperação viria acompanhada de alivio nas pressões inflacionárias e do necessário estímulo à inovação e à qualificação de mão de obra. Porém, como se observa no momento, esse encaixe não é trivial.

A experiência recente tem mostrado que, se juros mais normais e câmbio menos valorizado são condições necessárias para impulsionar o investimento, estão longe de serem suficientes. Dos múltiplos elementos que concorrem para formar um ambiente propício à inversão de recursos na ampliação da oferta – financiamento em bases atraentes, regras estáveis e transparentes, retornos compatíveis etc. etc. –, um cenário externo que ofereça horizontes favoráveis deve ser colocado, sem dúvida, entre os mais decisivos.

Nos modelos de projeção do economista-chefe, no Brasil, do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira, tanto para a expansão do investimento quanto da próprio PIB, por exemplo, o comportamento da economia global aparece como fator determinante. O economista que, então na contramão do consenso, antecipou o PIB mínimo de 2012 trabalha, para 2013, com três cenários, a partir, justamente, de hipóteses para o crescimento global.

A previsão de que a economia, neste ano, crescerá 4%, que coloca Teixeira novamente na contramão do consenso, depende, na verdade, da concretização de um cenário básico, considerado como de maior probabilidade de ocorrer, conforme descrito em relatório elaborado em janeiro. Nesse cenário, em que a economia global avançaria 3,5% este ano, os investimentos, no Brasil, aumentariam 6,5% e o PIB, 4%. Em dois outros cenários, um mais pessimista, em relação ao crescimento global, e outro mais otimista, os números seriam diferentes.

No cenário pessimista de Teixeira, a economia internacional não cresceria mais de 2,7%, em 2013, repercutindo, no Brasil, em aumento de apenas 3,1% nos investimentos e de 2,8% no PIB. Já no cenário mais otimista, que opera com a hipótese de uma expansão da economia mundial de 4,2%, os investimentos registrariam um salto de 9,6% e a economia avançaria 5,1%.

As chances do cenário otimista já eram pequenas e, com as recentes revisões para baixo de FMI e OCDE para o crescimento mundial, agora com projeção de expansão pouco acima de 3%, praticamente foram eliminadas. Importa destacar, de qualquer maneira, os riscos de se desprezar a influência do cenário externo na trajetória de crescimento da economia brasileira e, mais do que em relação ao PIB, no caso do elemento crítico representado pelo investimento.

Essa constatação serve para o investimento como um todo, mas é ainda mais verdadeira quando se observa, separadamente, as fatias pública e privada. Um simples passar de olhos no comportamento da taxa de investimento decomposta, ao longo dos últimos anos, deixa claro que mais do que as aplicações públicas, as inversões privadas – e, dentro delas, especificamente os investimentos em máquinas e equipamentos – seguem muito de perto os ciclos dos humores econômicos globais.

Se o crescimento só voltará com investimentos – e com investimentos privados – é bom ficar de olho no fator externo.