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Hora de desmontar as bombas-relógio

Alívio na inflação mensal abre espaço para a discussão do início do desmonte dos preços represados e da política cambial de valorização forçada da moeda.

José Paulo Kupfer

09 Agosto 2014 | 10h55

A inflação, medida pelo IPCA, quase estável, em julho, repetiu o resultado de julho do ano passado e, com isso, o índice, no acumulado em 12 meses, que voltou para o teto da meta, mostrou o primeiro recuo desde janeiro. A descompressão das altas de preços, no mês passado, foi generalizada.

Apenas três dos nove grupos que compõem o índice registraram alta, na comparação com junho. Além disso, as medidas do núcleo da inflação recuaram e o índice de difusão caiu abaixo da média histórica de 60%. No caso dos serviços, item até agora entre os vilões da inflação, ocorreu uma deflação em julho – a primeira em uma década e meia.

A tendência, até o fim do ano, é de recuperação nos índices mensais, mas em ritmo igual ou menor que o do ano anterior. Se não ocorrerem choques de oferta, a inflação, em 12 meses, voltaria a superar o teto da meta em agosto e setembro para depois voltar a descer, mês a mês, até fechar 2014 com variação mais perto de 6% do que de 6,5%. Reduziram-se, enfim, as perspectivas de variações acumuladas interanuais na direção de 7%.

Efeitos pós-Copa, principalmente em passagens aéreas e hotéis, ajudaram a derrubar o IPCA, no mês passado. Do lado oposto, a energia elétrica empurrou para cima o grupo “habitação”. Mais importante, pelo peso no índice e na percepção do consumidor, o grupo “alimentação” continuou, se bem que com menor ímpeto, a trajetória de deflação mensal dos últimos meses.


O respiro na escalada inflacionária agora projetado para este segundo semestre pode abrir espaço para o debate do melhor momento de iniciar o desmonte das bombas de efeito retardado que contaminam as perspectivas de convergência da inflação para o centro da meta. A questão dos preços administrados, com foco nos reajustes de preços da gasolina, da energia elétrica e dos transportes urbanos, é uma dos mais relevantes, mas não a única.

Um ponto central desse processo de desmonte, inevitável em algum momento, por suas repercussões para o conjunto da economia, diz respeito à taxa de câmbio. O recurso aos swaps cambiais, que não só mantêm o real valorizado, mas dão maior previsibilidade aos movimentos do câmbio, já consumiu perto de US$ 100 bilhões e começa a se aproximar do esgotamento.