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Inadimplência x retomada

José Paulo Kupfer

01 Março 2017 | 18h56

Todos os olhos, no Brasil, se voltam para o ajuste fiscal, mas há uma crise de insolvência sem precedentes na economia brasileira, que mereceria muito mais atenção. Podem anotar: sem atacar esse problema, não há como relançar a economia e qualquer carnaval em torno da recuperação de indicadores econômicos tende a terminar numa quarta-feira de cinzas de decepções.

Um levantamento do economista José Roberto Affonso, especialista em finanças públicas, registrado pela competente repórter Renée Pereira, no Estado desta quarta-feira, dá uma ideia bem concreta do tamanho do obstáculo à retomada já apontado em outros estudos — mas em geral “esquecidos” nas ondas de otimismo ainda sem consistência que têm pipocado desde fins do ano passado. Se o crédito em geral está em queda, a parcela destinada às empresas simplesmente evaporou. Tanto que, pela primeira vez, em dezembro, a fatia do crédito para pessoas físicas superou o volume tomado pelas pessoas jurídicas.

Essa “estranha” situação, segundo Afonso, não só “fere a história como a lógica”. Enquanto empresas com capacidade ociosa não têm ido ao mercado, as que precisam se financiar em grande medida estão inadimplentes e não conseguem aprovação de seus pleitos pelos bancos. Estudos da Serasa Experian, descritos na reportagem do Estado, registram que, em 2016, metade das empresas estava inadimplente, com um recorde de quase 5 milhões de negativadas.

O lento e complicado processo de desalavancagem está em curso, com a dificuldade e a marcha lenta típicas. O total do endividamento de famílias e empresas está agora em 70% do PIB, depois de alcançar um pico de 75% em 2015. Mas, para chegar nesse ponto, escalou um Everest, saindo de 35% do PIB, em 2005, para os números atuais. Apenas em moeda estrangeira, o volume total de dívidas de empresas brasileiras dobrou desde 2008, quando partiu de US$ 60 bilhões para chegar nos US$ 120 bilhões de hoje.

Tal cenário foi construído pela combinação adversa de uma série de fatores. Já em setembro do ano passado, na coluna semanal que mantinha no Estado, descrevi o processo que levou ao atual endividamento (ver “Obstáculo Silencioso”, em http://bit.ly/2cqx1AJ):

“A forte queda da rentabilidade empresarial, a partir de 2011, afetou muito negativamente o lucro e o retorno dos investimentos. Combinada com a elevação dos juros e a valorização do dólar, que fizeram subir o custo dos financiamentos, a situação levou as empresas a ingressarem no pior dos mundos em que a expansão de seus ativos se tornou menor do que a de seus passivos.”

Esse quadro empresta consistência a pesquisas segundo as quais mais da metade das empresas de capital aberto não tem conseguido gerar recursos nem sequer para o pagamento dos juros de suas dívidas. Uma importante consequência da predominância da falta de fôlego empresarial e do consumo, em razão da inadimplência, reside no fato de que a queda dos juros pode demorar mais do que se esperaria para reverter em decisões de investimento ou pelo menos de ocupação mais intensiva da capacidade ociosa.

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