1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Inflação do chuchu como referência

José Paulo Kupfer

09 fevereiro 2011 | 17:14

Sensacional a sacada dos colegas da editoria de Economia do Estadão, na edição desta quarta-feira, com a reprodução de reportagem de época sobre a “inflação do chuchu”, evento ocorrido em 1977. É uma delícia, sobretudo à luz dos debates de hoje, acompanhar os argumentos do então ministro Mario Henrique Simonsen, incontestavelmente um dos melhores economistas brasileiros de todos os tempos, reproduzidos no texto, para explicar por que a alta dos preços não deveria preocupar.

Publicada em 6 de abril, a reportagem informa que a alta dos preços em março de 1977 chegara a 4%, superando os 3,7% de janeiro e os 3,2% de fevereiro. Destaca o texto que, com um acumulado de 11% no trimestre, ficava ameaçada a “meta”, revelada naquele momento por Simonsen, de fechar o ano com uma inflação na casa de 35%.

A reportagem relata que Simonsen mostrava-se tranqüilo, assegurando que a inflação estaria “isolada e localizada“. Segundo o ministro, dos 4% de inflação, 3,2% foram produzidos pelo setor agrícola e “somente” 0,8% pelo segmento industrial. O texto reproduz declaração de Simonsen: “E o diabo é que não se trata de inflação de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo”.

 Simonsen encontrava-se em Nova York, mas prometia, quando retornasse no dia seguinte, “dar um jeito nos hortifrutigranjeiros”. Ainda de acordo com a reportagem, isso se daria com um ataque em duas frentes: de um lado, levando a Cobal a “entrar firme” na comercialização, sobretudo em frutas e legumes, e, de outro, “alterando a fórmula de cálculo da participação de hortifrutigranjeiros na composição do custo de vida no Rio de Janeiro”.

A primeira parte da estratégia de Simonsen era colocar a então Companhia Brasileira de Alimentos para intervir e regular, de modo mais ativo, a oferta de alimentos. Além de lembrar que a Cobal foi sucedida pela atual Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é preciso não esquecer que, naquele tempo, a inflação “oficial” era o conhecido IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), já calculado pela FGV-RJ, com uma diferença importante, qual seja, o Índice de Custo de Vida (ICV), que, como hoje, vale 30% do índice, era calculado apenas para a cidade do Rio de Janeiro.

Já a segunda parte do “ataque” à inflação era bem mais sofisticada. Consistia em mudar a participação ponderada de hortifrutis na composição do índice. Em vez de considerar quantidades fixas, de acordo com pesquisas estáticas de orçamento familiar, a proposta do ministro à FGV era adotar uma elasticidade-preço unitária para frutas e legumes. Com isso, a partir das variações de preços, a participação dos produtos na composição do índice reduziria ou aumentaria, na mesma proporção.

É curioso ler, na reportagem do JT reproduzida no Estadão, que o esquema da elasticidade unitária foi montado pelo próprio Simonsen, “uma noite dessas lá em casa”, utilizando um “sofisticado” microcomputador (é de se imaginar a “sofisticação” de um micro trinta e tantos anos atrás…). Mas, como a FGV não se sentiu capacitada a estruturar tal programa, Simonsen insistiu na criação de uma fórmula simplificada, capaz de captar de alguma maneira a verdadeira realidade do consumo. O ministro não se conformava com o fato de que o índice de preços não fosse capaz de captar a óbvia redução na quantidade consumida de chuchu – um bem altamente elástico em relação a preço – com a quadruplicação de seu preço. Valeu por uns tempos e caiu em desuso.

Também é muito interessante e curioso, ainda mais no cotejo com os dias atuais, relembrar o debate de então sobre as causas da inflação, resumido na reportagem. Simonsen, monetarista convicto, obsessivamente preocupado, segundo suas próprias palavras, com a “sensibilidade da base monetária”, refuta os colegas economistas: “Simonsen diz que uma das maiores ilusões dos analistas da inflação brasileira é pensar que as elevadas taxas do início do ano devem-se à expansão monetária do final do ano passado”, descreve a reportagem.

Segue-se uma detalhada explicação de Simonsen para os movimentos da base monetária, por ele considerado benignos no caso, a partir da constatação de que, sazonalmente, no primeiro trimestre, sempre ocorre contração dos meios de pagamento. E a conclusão da alta inflacionária: “O principal motivo é a entressafra das hortaliças, legumes e frutas, que vai geralmente de janeiro a abril. A partir de maio, eles despencam e sua influência na taxa inflacionária também se reduz à menor expressão”.

É claro que os computadores, os regimes de produção agrícola, os impactos das políticas monetária e fiscal são outros e realmente muito mais sofisticados. Até mesmo o alimento que mais distorce os índices nas chuvaradas do verão não é mais o chuchu, e sim o tomate. Mas…

* * *

Escrevi este post envolto em saudades. De volta ao Rio, depois de cinco anos em São Paulo (em seis meses retornei a Sampa para nunca mais voltar à minha cidade), era subeditor de Economia, sob a chefia de Paulo Henrique Amorim, no velho e respeitado “Jornal do Brasil”, na época da inflação do chuchu – uma cucurbitácea, como tivemos de aprender a usar, como sinônimo do dito cujo, recorrendo ao dicionário, tal a presença do chuchu no noticiário.

Simonsen, um brilhante tipo inesquecível, deixava os repórteres enlouquecidos com a obsessão pelo controle da base monetária, enquanto a inflação, já embalada pela indexação, na época conhecida como correção monetária. Meus colegas, em Brasília, volta e meia, telefonavam e nem davam “boa tarde”, indo direto ao que os agitava:

– Estourou!!! – gritavam no meu ouvido.

– Estourou o quê? – eu perguntava, meio assustado.

– A base monetária!!! – respondiam, sem fôlego.

Hoje, o que estoura, sempre, no discurso dos analistas e, em conseqüência, na cobertura econômica, são as contas públicas. Só mudou a obsessão.