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IPCA de setembro mostra início de ajuste benigno na inflação

José Paulo Kupfer

06 Outubro 2017 | 16h45

A recuperação da economia, via retomada do consumo, ainda não bateu — pelo menos não se mostrou com nitidez — na variação do IPCA. Embora em setembro a inflação mensal, de 0,16%, tenha ficado acima das projeções medianas dos analistas e registrado, com 2,54%, a primeira alta no acumulado em 12 meses desde agosto de 2016, a elevação de preços, no mês passado, ainda foi menor do que em agosto (0,19%).

Os desvios nas projeções se deveram a altas em preços administrados, caso dos combustíveis, incluindo gás de cozinha, e das passagens aéreas em mês de eventos e feriados, e de recuos menos intensos nos preços dos alimentos no domicílio, puxados principalmente por carnes. Os preços livres, iniciaram uma reversão suave, saindo de uma queda de 0,31% em agosto para uma alta de 0,14%, em setembro. Mas os preços dos serviços subjacentes — excluídos os subitens comunicação, educação, turismo e serviços domésticos —, que espelham melhor o ciclo econômico, continuaram a recuar, confirmando que os efeitos da recessão ainda estão presentes no vaivém dos preços.

Projeções para outubro apontam uma alta de 0,4% ou 0,5% na variação do IPCA, o que, se confirmado, levará a inflação em 12 meses a 2,7%. Mas essa alta acima do padrão recente também ainda tem pouco a ver com a retomada do consumo que os índices de atividade econômica começam a apontar. A continuidade do processo de ajuste dos preços dos alimentos, com o progressivo esgotamento dos estoques da supersafra deste ano, e, principalmente, a bandeira vermelha aplicada às tarifas de energia elétrica serão os vilões de outubro.

As perspectivas para o fim do ano, depois dos resultados de setembro, são de que a inflação, medida pelo IPCA, feche 2017 um pouco acima de 3%, o piso do intervalo do sistema de metas. A prevista correção da trajetória inflacionária, além das estimativas atuais de alta no ano de 2,95%, não abre  espaços para preocupações com a marcha dos preços pelo menos até fins de 2018. Trata-se, segundo todas as evidências disponíveis, de um ajuste benigno.


Nem mesmo movimentos nos Estados Unidos, com quase certa nova alta da taxa de juros em dezembro e possíveis cortes em impostos, transferindo recursos do mercado financeiro internacional para Wall Street, parecem capazes de promover desvalorizações significativas do real ante o dólar e, portanto, pressionar a inflação. Com o equivalente a 20% do PIB em reservas, o Banco Central dispõe de recursos mais do que suficientes para furar qualquer onda na direção da valorização relativa do dólar e de pressões sobre os preços.

Não muda, por isso, a visão de que a política monetária continuará estimulando a atividade, mantendo-se abaixo da taxa estrutural e podendo fechar o atual ciclo de cortes nas taxas básicas de juros, nos primeiros meses de 2018, abaixo de 7%. Mas, de qualquer maneira, depois do IPCA de setembro, não será mais tão surpreendente se o Banco Central tirar o pé do acelerador na redução dos juros mais cedo do que o atualmente previsto.