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Juros sobem nos EUA, mas não devem afetar fluxos de recursos para o Brasil

José Paulo Kupfer

14 Junho 2017 | 21h01

Os mercados financeiros pelo mundo não vão se mexer ou pelo menos não mudarão de direção depois da decisão do Federal Reserve de aumentar os juros de referência nos Estados Unidos em 0,25 ponto, para o intervalo entre 1% e 1,25% ao ano, nesta quarta-feira. Contribui para isso não só o fato de que a decisão era mais do esperada, mas também a ausência de surpresas na avaliação dos dados da economia pelos dirigentes do Fed, conforme se pode observar no comunicado divulgado e nos termos da entrevista da presidente da instituição, Janet Yellen.

Depois da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), a expectativa dos analistas é de que haverá mais um aumento das taxas básicas nos EUA, na mesma intensidade, provavelmente em setembro, mas podendo ocorrer apenas em dezembro. A diferença das apostas entre as datas possíveis para a próxima mexida nos juros deriva do peso que cada analista coloca nas prioridades do Fed — controlar, com algum aperto monetário, eventual, ainda que pequena, pressão de demanda, em razão sobretudo dos baixos índices de desemprego, ou ajudar, mantendo a política monetária no atual nível por mais tempo, a trazer a inflação, que permanece abaixo da meta de 2%.

Também como era esperado, a reação do dólar, nos mercados internacionais, foi tênue e pontual. A moeda americana recuou ligeiramente depois do anúncio da nova taxa de juros, mas logo voltou aos níveis em que encontra nos últimos tempos. Também não são esperados movimentos significativos de reacomodação de ativos no mercado internacional. Os fluxos de capitais externos vivem nova fase de alta liquidez global. As parcelas dessa liquidez que têm se dirigido a economias emergentes não devem mudar de direção, nem mesmo produzir alterações na alocação de recursos entre essas economias.

O Brasil, assim, deve continuar a receber fluxos consideráveis de recursos externos, ajudando a controlar o dólar e, na sua esteira, a inflação. Nem mesmo as incertezas políticas, com as denúncias que envolvem não só ministros do governo de Michel Temer, mas atingem o próprio presidente, parecem ter a capacidade de desviar do Brasil a rota das aplicações em moeda estrangeira.


Para entender esse movimento, que se mostra insensível aos potenciais riscos trazidos pela crise política, com potencial impacto negativo sobre a recuperação da economia, o colega Fábio Alves, na coluna que mantém no Estadão, deu excelente contribuição nesta quarta-feira. Conhecedor dos meandros das decisões de investimento de fundos internacionais, Alves mostrou que, apesar do ciclo de cortes dos juros básicos na economia, a taxa de retorno das aplicações no Brasil continua entre as mais altas dos emergentes e que, em razão disso, nem mesmo as fragilidades econômicas brasileiras estão afugentando os investidores (http://bit.ly/2s2JyUT).