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Limites do consumo

José Paulo Kupfer

01 Setembro 2017 | 17h03

Do que depende a aceleração da trajetória de crescimento esboçada no primeiro semestre de 2017? O carro da economia, diferentemente do que traçou a equipe econômica do governo, começou a pegar pelo lado do consumo das famílias — não pela austeridade que promoveria confiança e esta os investimentos que resultariam em emprego, consumo e crescimento. 

No segundo trimestre do ano, o PIB cresceu 0,2% sobre o primeiro trimestre e 0,3% em relação ao segundo trimestre de 2016. Não foi muito, mas o suficiente para garantir dois trimestres seguidos em terreno positivo e legar para os trimestres seguintes uma herança estatística de 0,4%, conforme cálculos de Braulio Borges, pesquisador do Ibre/FGV e economista da LCA Consultores. Para que o novo roteiro até o crescimento sustentável se confirme, o consumo tem de avançar até abrir espaços para o investimento, fazendo então rodar as engrenagens do crescimento em grau e extensão necessários.

Como o consumo pode avançar? Antes de tudo, pela redução do desemprego, seguido pela continuidade da inflação baixa. Em conjunto, os dois movimentos promovem aumento da massa real de rendimentos, a base que impulsiona o consumo. Depois, é preciso que o consumidor encontre linhas de crédito de fácil acesso e custo atraente para multiplicar seu poder de consumo.

As tendências no mercado de trabalho ainda não estão perfeitamente definidas, embora pareça haver espaço para acomodar quem procura trabalho. O problema é que esse espaço ainda se concentra nas franjas do mercado, nas áreas da informalidade e do “por conta própria” — um balaio que reúne tanto o empreendedor moderno quando quem, correndo atrás do prejuízo da falta de ocupação, faz da viração cotidiana o meio de vida. Difícil saber quando o mercado de trabalho vai reverter essa tendência de baixa qualidade e a ocupação da capacidade de produção ociosa vai requerer mão de obra formal para operá-la.


Outra força que parece querer pegar impulso, mas ainda dá rateadas, é o crédito. Multiplicador do consumo, ele é chave na expansão do consumo que pode sancionar a volta dos investimentos. Os recursos do FGTS inativo que entraram na roda da economia e ajudaram a melhor o PIB já deram o que tinham de dar, mas deixaram um saldo mais do que positivo. Se parte do dinheiro desentocado foi para as compras, é certo também que parte foi usado para saldar ou reduzir dívidas.

Essa desalavancagem, muito mais visível nas famílias do que nas empresas, que continuam afogadas em dívidas e com resultados insuficientes para saldá-las, é uma condição preliminar para expandir o crédito e o consumo. Um movimento de maior procura por empréstimo ainda tímido tem sido observado, assim como é mais tímida ainda a oferta de linhas de financiamento pelas instituições financeiras. Taxas básicas de juros mais baixas e em queda ajudam, mas não resolvem e morrem na praia dos juros efetivos ainda nas alturas, em virtude de distorções do mercado financeiro, que mantêm, via spreads ainda muito amplos.

Um detalhe importante deve ser considerado: o consumo que agora desponta como locomotiva do trem econômico não é o mesmo que catapultou a economia na primeira década e meia dos anos 2000 — e que bateu no teto do endividamento e do desemprego, nos últimos cinco anos. Seus limites são agora mais estreitos e seus poderes multiplicadores menos intensos.

Não há mais o impulso de elevações reais do salário mínimo, nem o pesado bombeamento de gastos públicos da época. Falta também espaço para um novo e rápido processo de formalização no mercado de trabalho — dá-se justamente uma reversão nesse ponto — e a consequente bancarização ocorrida entre 2003 e 2010, que sustentou uma forte expansão do crédito, multiplicador do consumo.

À espera de que o investimento saia do estado de hibernação em que se encontra há anos, o consumo só pode garantir uma recuperação econômica lenta e com prazo curto de validade. É nesse sentido que a fraqueza do setor da construção joga areia nas engrenagens da recuperação. Dele terão de emergir as forças do crescimento que valha o nome.