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Nos investimentos, está valendo a “regra da gafieira”

José Paulo Kupfer

18 Maio 2017 | 14h40

As consultorias de investimento independentes e as de bancos estão enviando mensagens a seus clientes sugerindo manter posições e esperar “baixar a poeira”. A Bolsa abriu e despencou, exigindo a aplicação de um circuit-break — medida heroica de suspensão do pregão para reduzir a febre de vendas no mercado. O próprio Tesouro Nacional suspendeu ofertas de títulos públicos (LTN e LFT) e as negociações no Tesouro Direto. Parece o fim do mundo, mas está tudo funcionando como manda o figurino.

Quando ocorrem hecatombes, naturais ou políticas, como é o caso da delação da JBS incriminando o presidente Michel Temer, o mercado de ativos financeiros entram imediatamente em convulsão, mas logo passam a uma hibernação temporária — espontaneamente ou por força de mecanismos institucionais de auto-proteção. É o que se sugere para os chamados “investidores comuns”. Cada um, com suas poupanças, deve seguir o mesmo princípio.

Nessas horas, em que apenas profissionais — talvez nem eles — deveriam se movimentar nos pregões, vale, para o esse aplicador comum, a regra estabelecida em “Piston de Gafieira”, famoso samba de Billy Blanco de fins dos anos 50. Armada a confusão no salão, ensina a letra, “quem está fora não entra, quem está dentro não sai”. No caso dos ativos financeiros, nessas horas, nem entrar nem sair de posições costuma ser a decisão mais acertada. Atuar de outra forma é correr riscos de embarcar nos exageros — para cima e para baixo — recorrentes nesses momentos.

À maneira de um “circuit break” que objetiva cortar episódios de histeria ou pânico nos mercados, abrindo espaço para um pouco de reflexão e retorno à racionalidade, quem tem suas suadas poupanças envolvidas no turbilhão das cotações também deve respirar fundo e, aproveitando a parada, refletir sobre seus objetivos como investidor e sobre as características de seus portfólios. Pode aproveitar para também avaliar se as carteiras espelham os fundamentos da economia ou se estão amparadas em meras exptectativas e/ou simples teorias.

Uma teoria importante a rever, por exemplo, é a de que a inflação está em queda — e com ela a taxa básica de juros — porque há (havia, melhor dizer agora) expectativas de aprovação da reforma da Previdência desenhada pelos economistas do governo Temer. Se isso fosse verdade, a inflação deveria pegar agora um rabo de foguete e disparar. Mas não é o que se espera. A inflação está no pé por causa da recessão, ainda profunda, pelo encerramento do ciclo de ajustes de preços relativos, sobretudo os administrados, iniciado ainda no governo Dilma pelo então ministro Joaquim Levy, a ausência de choques de oferta, principalmente alimentos, e pelo bom comportamento das cotações do dólar (pelo menos até aqui).

Exceto a taxa de câmbio, que deverá passar por um período de maior instabilidade, mas sem perigo de explosão duradoura, e pode afetar preços, os outros fatores continuarão a atuar para manter a inflação em ordem. O câmbio mais volátil pode até reverter uma fração da tendência de forte baixa em curso, mas não parece ter força para virar o jogo todo. Não esquecer, reforçando esse argumento, que o Banco Central tem bala na agulha (leia-se reservas internacionais) para desuadir especuladores mais predadores e já está ativo na praça oferecendo liquidez em swaps cambiais tradicionais. Além disso, esse trabalho será facilitado pela continuidade de ingresso de recursos externos, principalmente via exportações de commodities, que não deverá ser interrompido.

Resumo da ópera: pode demorar até um pouco mais do que o normal, dado as circunstâncias bem complicadas da crise atual, para que ocorra uma rearrumação institucional capaz de levar a uma nova acomodação. Mas a acomodação sempre acontece nesses episódios, virá, ainda que não exatamente nos nível e moldes do que se tinha antes da bomba que caiu sobre o Palácio do Planalto.

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