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Economia » O carnaval ficou repetitivo e chato

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José Paulo Kupfer

09 Fevereiro 2016 | 14h04

Este ano não foi igual àquele que passou. Desta vez cheguei a uma conclusão definitiva: não dá para tentar saber como foi o desfile das escolas de samba do Rio pela transmissão monopolística da TV. Impossível distinguir o melhor samba, a melhor evolução, fantasias, carros, bateria, qualquer quesito ou conjunto. Impossível entender os desfiles pela televisão. Na telinha, é tudo um pastel só.
As escolas de samba do Rio me mobilizaram por umas três décadas, ano a ano, a maior parte do tempo no batente, cobrindo o evento. Não podia ser diferente. Sou jornalista nascido, em meados dos anos 60, na Bloch Editores, auge da Manchete e da Fatos&Fotos, a revista em que comecei essa jornada já muito longa de quase meio século de jornalismo. Logo, apesar de parecer estranho para um cara da Economia, sou jornalista de carnaval.
Na primeira cobertura de que participei, em 1968, envergando o primeiro smoking que vesti na vida, fui destacado para a gloriosa tarefa de carregar os participantes do concurso de fantasia que precedia o grande baile da cidade, para um estúdio improvisado da Manchete, em outro andar, onde eram fotografados para sair na esperada e magnífica edição de carnaval. Puxei e praticamente carreguei estrelas do concurso, quase todos gays, uma tradição, aliás, dos carnavais pré-liberação das opções de gênero — os grandes Clovis Bornay, Evandro de Castro Lima, Jésus Henriques e outros –, com seus faniquitos e as toneladas de strass de suas maravilhosas fantasias. Isso muito antes da migração das grandes fantasias para o carros das escolas de samba e do fim dos concursos (havia uma série de concursos do tipo, no Copacabana Palace, em Niterói, no Quitandinha, no Monte Líbano e muitos outros menos votados).
No mesmo ano, também fui designado para acompanhar três escolas de samba – acho que Estácio, Salgueiro e, com certeza, Império Serrano. Na Serrinha, meu principal contato era nada menos do Silas de Oliveira, o lendário compositor de “Aquarela Brasileira” e outros clássicos, de quem sempre ouvia histórias, tanto de samba quanto da Segunda Guerra na Itália, onde Silas foi pracinha da FEB. Tive a sorte e a honra de assistir ao nascimento de “Heróis da Liberdade”, do carnaval de 1969, um dos sambas  clássicos de Silas. Um dos maiores sambas de todos os tempos é, em resumo, como Silas me contou, na maior humildade, a simples, mas inspiradíssima descrição de um quadro de Pedro Américo, que ele viu, se não me engano, no Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista.
Adentrei o mundo do samba, no tempo dos bicheiros, antes do tráfico organizado. Entrevistei carnavalescos e compositores — publiquei na F&F, com fotos belíssimas do grande Walter Firmo, meu parceiro em tantas matérias, e pesquisei anos a fio para um livro que nunca escrevi. Cobri, por insistência minha, os últimos desfiles dos Ranchos, uma linda manifestação de carnaval, da qual as escolas de samba são descendentes diretos, e me meti até na tentativa fracassada de fundar um deles, o Flor Amorosa de Ipanema, como forma de resistência à sua iminente extinção.
Estava lá em desfiles memoráveis — na Getúlio Vargas, na Sapucaí ainda sem as arquibancas e na Sapucaí do Sambódromo. Caso da Mangueira em 1984, enredo Braguinha, estreia do Sambódromo, quando a Mangueira voltou da Apoteoso com o público atrás e o desfile durou 4 horas (começaria logo depois a correria do samba, com tempo cronometrado). Dos Ratos e Urubus, de Joãozinho Trinta, na Beija-Flor de 1989, com o carro abre-alas impactante entrando bem na hora do alvorecer. Do Ziriguidum 2001, de Fernando Pinto, na Mocidade de 1985. Do próprio Heróis da Liberdade e Carmen Miranda, da minha Império Serrano. E ainda o belíssimo Lendas e mistérios da Amazônia, da Portela. Sem falar no carnaval de 1970, em que Janis Joplin apareceu do nada no palanque da Manchete e acabei servindo de “guia do desfile” para ela, nas duas horas ou pouco mais em que ficou por lá (uma crônica que escrevi sobre o episódio está em http://bit.ly/1Rm55P6).
Nunca me senti atraído por desfilar. Sempre achei uma “invasão” de um território do qual me aproximei como observador e assim permaneci. Idem para os camarotes. É um mundo paralelo na festa que nunca me interessou. Tenho tentado, nos últimos anos, acompanhar de longe. Mas agora chega. Ficou repetitivo e chato demais para mim.
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