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O IBC-Br e 2018

José Paulo Kupfer

15 Maio 2017 | 18h40

O IBC-Br, indicador mensal de atividade econômica calculado pelo Banco Central ajudou a impulsionar projeções otimistas no mercado para o desempenho da economia em 2017. Não importa que, em relação a fevereiro, o número de março tenha sido negativo, com queda de 0,44%, porque, no conjunto do primeiro trimestre, na comparação com o IBC-Br agregado dos últimos três meses do ano passado, o indicador registrou avanço de 1,12% — o primeiro em oito longos e consecutivos trimestres.

Não importa também que o pequeno avanço no conjunto dos primeiros três meses do ano tenha de ser creditado, de acordo com os próprios analistas que o louvaram como mais uma prova do início de uma retomada, a fatores excepcionais. Um deles diz respeito aos efeitos positivos — e restritos a esses primeiros meses do ano — da excelente e incomum safra de grãos que está sendo colhida neste começo do ano. Um outro tem a ver com mudanças na metodologia pelo IBGE, a partir de janeiro, para o cálculo da evolução da atividade do comércio e dos serviços, que promoveram uma reversão para cima de dados que, no método antigo, permaneceriam para baixo.

Não importa ainda que já sejam conhecidas indicações de que em abril a economia se encontrou com novo refluxo e que as perspectivas para o segundo trimestre sejam da volta da economia ao terreno negativo. Continua não importanto que, com todo o otimismo do momento, poucos se arrisquem a projetar um crescimento acima de 0,5% para o PIB em 2017. Para uma economia que desceu mais de 7% só nos últimos dois anos, é um suspiro, ainda que sem dúvida melhor do que mais uma queda.

Sem negar uma “despiora” e menos ainda uma possível recuperação mais consistente no futuro, não custa tentar entender esse otimismo. Uma das possíveis explicações pode ser resumida em quatro algarismos reunidos num número: 2018.

Uma entrevista do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ao jornal “Valor”, publicada nesta segunda-feira, não deixa dúvida sobre o motor do otimismo a quase qualquer preço. “Se quem entrar em 2018 vier com ideias tortas, vai arrebentar tudo”, decretou Armínio. Somado ao que disse o presidente Michel Temer, no domingo, em entrevista ao Estadão, a razão da torcida fica muito mais nítida. Perguntado sobre seu papel nas eleições do ano que vem, Temer respondeu que “vai depender do sucesso de seu governo” — sucesso que ele atribui, na mesma entrevista, à redução do desemprego.

Não se pode negar a novidade de alguns indicadores em situação melhor do que antes, mas também não se deve esquecer que outros tantos continuam a deteriorar. A eventualidade de uma recuperação mais sustentada a partir do fim do ano, com a qual acenam no governo e na sua base de apoio entre economistas e empresários, não permite, no momento, desprezar a existência de pedras pontudas no caminho dessa recuperação.

Basta ouvir o clamor aliado por cortes mais rápidos e agudos nas taxas básicas de juros determinadas pelo Banco Central para concluir que, por enquanto, a recuperação que pode reduzir o desemprego, garantir o sucesso de Temer e encaminhar ideias não tortas para 2018  ainda não está ao alcance. E que, entre o esforço para encontrar sinais positivos na economia e uma concreta e consistente recuperação ainda existe um amplo fosso a ser superado.

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