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Quando juros básicos em queda são necessários, mas insuficientes para impulsionar a economia

José Paulo Kupfer

26 Julho 2017 | 21h06

Um Copom otimista, minimizando as incertezas ampliadas com a crise política que envolve, diretamente, o presidente Michel Temer e tem produzido tanto atrasos na reforma da Previdência quanto aumento de gastos públicos e pressões sobre a meta fiscal, decidiu, por unanimidade, no início da noite desta quarta-feira, reduzir a taxa básica de juros (taxa Selic) em 1 ponto porcentual e trazê-la para 9,25% ao ano. É a primeira vez, em quase quatro anos, que a taxa Selic acomodou-se no terreno de um dígito.

Quinze minutos depois do anúncio da decisão, o presidente Michel Temer comemorou no Twitter. “Redução dos juros incentiva investimentos produtivos que geram mais empregos”, publicou. Mais tarde um pouco, seu porta-voz, Alexandre Parola, repetiu a mensagem, segundo a qual juros mais baixos favorecem investimentos e o acesso ao crédito.

As mensagens são verdadeiras, mas, infelizmente, sobretudo no ambiente em que move a economia brasileira hoje, muito mais na teoria do que na prática. Juros mais baixos, em tese, resultam em custos menores nos empréstimos e, com isso, ampliam-se os espaços para decisões de investimentos. Decisões de investimento, de sua parte, costumam promover ampliação de capacidade produtiva, requerendo a utilização de maior quantidade de fatores de produção, incluindo, em especial, direta e indiretamente, mão de obra.

Desse círculo virtuoso à realidade dos spreads bancários e do endividamento ainda sufocante de famílias e empresas, vai uma boa distância. Uma distância tal que nem mesmo a elevada capacidade ociosa existente, capaz de ser preenchida com menor aporte de capitais, elevando tanto o emprego de trabalhadores e de matérias-primas quanto fazendo movimentar as máquinas e equipamentos desligados, está conseguindo ser aproveitada de modo consistente. As projeções, muito baixas e ainda cadentes, para o crescimento da economia neste ano e no próximo, depois de um mergulho superior a 7%, acumulado nos dois anos anteriores, estão aí para comprovar o ponto.


Mesmo 5 pontos porcentuais menores, depois de sete cortes sucessivos desde o segundo semestre de 2016, os juros básicos reais ainda estão entre os mais altos do mundo. Além disso, o grande problema é que os spreads bancários, marcadores da diferença entre as taxas pagas pelos bancos para captar recursos e as que cobram dos clientes, recordistas mundiais, continuam tornando proibitivos os juros efeitvos oferecidos na praça. Sem falar nos canais ainda entupidos do crédito — bancos temem emprestar e clientes temem tomar emprestado. Spreads recordistas, porém, são apenas consequência e não causa de um sistema financeiro repleto de distorções, que reduzem a potência da política monetária.

Por motivos variados que, a bem da verdade, em parte estão sendo atacados pelo Banco Central, para que os juros básicos atue efetivamente, de um lado na contenção de pressões inflacionárias, segurando a atividade econômica e, de outro, impulsionando os negócios, os níveis de taxas têm de ser muito altos, no primeiro caso, e muito baixos, no segundo. São entraves de várias ordens, desde a concentração excessiva do mercado financeiro na mão de poucas instituições financeiras à prática de empréstimos a taxas subsidiadas por bancos públicos, excluindo o setor privado da competição, notadamente nos financiamentos de prazo maior para investimentos.

O resumo da ópera é que, se juros mais baixos são necessários para estimular o investimento e o emprego, como afirma Temer, dependendo da conjuntura e das estruturas da economia, podem não ser suficientes para tanto.