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Redução da meta de inflação vem em momento arriscado

José Paulo Kupfer

29 Junho 2017 | 14h35

São pelo menos duas as discussões que a decisão de reduzir a meta de inflação para 4,5% em 2019 e 4%, em 2020, anunciada nesta quinta-feira, vão colocar em evidência. A primeira é se este não seria um momento arriscado para fazer a alteração. A outra, mais técnica e independente do momento, é sobre o peso das expectativas para a inflação no controle da alta de preços pela política monetária.

Em relação ao quadro político e econômico em que foi anunciada a mudança, na manhã desta quinta-feira, a crítica une heterodoxos, naturalmente tendentes a ser contra a alteração, e ortodoxos de peso. Eles comungam da convicção de que metas mais baixas, em ambiente de crise política e economia ainda bastante deprimida, atrasa, se não aborta, as perspectivas de recuperação. Não custa lembrar, a propósito, que a alteração da meta coincide com indicações oficiais de que a atividade econômica, em 2017, deverá evoluir abaixo das projeções atuais do próprio governo.

O economista e matemático Aloisio Araújo, da FGV-RJ, referência na linha de pensamento ortodoxa, por exemplo, teme que a redução da meta, ao operar no sentido de reverter o ritmo de relaxamento da política monetária, contribua para frear o esboço de recuperação e manter a taxa de desemprego nas alturas em que se encontra. Sergio Werlang, também da FGV-RJ e também ortodoxo, responsável pela introdução do sistema de metas, em 1999, igualmente considera a redução da meta inadequada, no momento. Ele olha para o ainda enorme desequilíbrio fiscal e para a rigidez salarial no funcionalismo público ao preferir que a meta fosse mantida em 4,5%.

Nessa discussão, não se pode esquecer a atual controvérsia entre economistas — não só no Brasil, mas em todo o mundo — em relação aos impactos da política monetária no controle da inflação. O prestigiado economista André Lara Resende, por exemplo, acaba de publicar um livro no qual discute, de forma crítica, as teorias vigentes, que relacionam movimentos nas taxas de juros a respostas inversas nas variações de preços. A ideia ainda dominante de que puxar para cima as taxas de juros funcionam na redução da inflação está sendo contestada por economistas de referência internacional. Principalmente nas economias às voltas com desequilíbrios fiscais e elevado endividamento público, é possível, de fato, encontrar situações paradoxais em que altas de juros resultam em alta da inflação.

Além de considerar uma meta mais baixa agora dificulta a retomada, economistas, sobretudo entre os heterodoxos, discordam da relevância conferida pelo ministro Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn e economistas de mercado às expectativas para o controle da inflação — noção da qual deriva a decisão de reduzir a meta. André Modenesi, da UFRJ, estudioso dos regimes de metas de inflação, não entende que possa ocorrer impacto desinflacionário significativo em razão da redução da meta de inflação. “A variação da inflação, durante a existência de regime de metas, em média, ronda 7% ao ano”, diz ele. “A dinâmica inflacionária empírica da última década mostra baixa dependência das expectativas”. Segundo ele, a inflação característica nos últimos anos foi uma inflação de serviços, segmento menos dependente de expectativas e mesmo da ação da política monetária, via taxa de câmbio.

Noves fora aspectos e divergências técnicas, não parece haver muitas dúvidas de que a decisão de reduzir a meta, aproximando-a dos padrões internacionais, conforme declaração do próprio Meirelles, teve também objetivos políticos. Em meio às graves denúncias envolvendo o presidente Michel Temer e na predominância de um ambiente econômico ainda bastante adverso, a medida objetivaria reforçar as mensagens de que a política econômica avança e não se encontra contaminada pela crise política. Contudo, quando a recuperação da economia é vital para a sobrevivência do governo, a perspectiva de um freio no estímulo à atividade econômica, traria o risco de fazer os sinais transmitidos pelo governo funcionarem em sentido contrário e negativo.   

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