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Retomada fica mais fácil, mas recuperação é que são elas

José Paulo Kupfer

07 Março 2017 | 13h00

O PIB recuou 3,6% em 2016. Desde 2014, a economia encolheu 8%. Mas esse resultado já era esperado. Um tombo tão forte no último trimestre é que não era esperado. Em relação ao trimestre anterior, a economia caiu 0,9% — as projeções apontavam queda de 0,6%. Significa que afundou ainda mais do que no período julho/setembro e deixou uma herança negativa para 2017. Mais forte ainda foi a perda do PIB per capita. Nos últimos três anos, o recuo chegou a 10%.

Consequência aritmética desse desabamento histórico: com uma base de comparação tão deprimida, ficou mais fácil encaminhar uma “retomada”. É só parar de piorar — o que, nas profundezas em que se encontra a produção, não exige quase nenhum esforço.

Ainda assim, o carregamento estatístico para os primeiros meses de 2017 pressiona o PIB do ano para baixo. Vai ser preciso absorver cerca de 1% negativos antes de tirar o nariz do PIB da linha d’água. Alguns analistas, mais otimistas, considerando os bons resultados do setor agropecuário, levantam a hipótese de que esse legado desfavorável possa ser absorvido inteiramente já no primeiro trimestre.

Outros, mais pessimistas, porém, entendem que as perspectivas para o ano, sobretudo no primeiro semestre, tendem a confirmar um ritmo de crescimento ainda nulo ou muito baixo. Nas contas dos economistas do Boletim Focus, a expansão do PIB deste ano ainda está abaixo de 0,5%. Segundo os mais pessimistas, este seria o teto de uma projeção que começa em zero.

O problema é a recuperação. Indicador mais saliente dessa dificuldade vem da taxa de investimento. Desde o pico de 20,9% do PIB em 2013, a taxa de investimento desceu a ladeira e chegou, em 2016, a 16,4% do PIB, o ponto mais baixo de toda a série iniciada em 1996. Somente no ano passado, o recuo do volume de investimentos superou 10%.

Uma pequena recuperação dos investimentos, em torno de 2%, é esperada em 2017, até porque a taxa de reposição do capital (o mínimo necessário para compensar a depreciação de máquinas e equipamentos) impõe um piso para o corte nos investimentos. Mas ainda assim é algo muito insuficiente para reabrir espaços a um crescimento econômico mais robusto e duradouro.

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