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Temor de desarranjo no ajuste fiscal faz BC pisar no freio

José Paulo Kupfer

31 Maio 2017 | 20h39

Mesmo com uma explicação muito clara, não é tão fácil entender a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa básica de juros em “apenas” 1 ponto porcentual, na reunião desta quarta-feira. A explicação, com todas as letras, está no comunicado divulgado logo após o encerramento da reunião e está diretamente ligada à crise política que atinge o coração do governo de Michel Temer.

Dúvidas em relação ao ritmo de aprovação das reformas estruturais — Previdência e trabalhista em destaque — e sua efetividade no ajuste da economia, a partir dos riscos de desarticulação da base aliada no Congresso e da própria permanência de Temer na Presidência, formam o pano de fundo da decisão mais conservadora do Banco Central. Conservadorismo que pode, pelo menos segundo a interpretação do comunicado, se estender nas próximas reuniões do Copom.

Se, porém, tudo isso faz sentido — ainda que leve o Banco Central a destoar das mensagens que o governo tenta passar sobre o andamento das reformas e a correção dos rumos da economia —, o conservadorismo da decisão não parece se apoiar em dados da realidade econômica conhecida. Tanto quanto a trajetória da inflação é francamente descendente e a atividade econômica ainda se mostra bastante enfraquecida, desemprego elevado, endividamento relevante e capacidade ociosa generalizada deveriam abrir espaço para uma aceleração no ciclo de corte dos juros básicos.

Começando pela inflação. O IGP-M, aquele índice cuja variação corrige uma ampla série de contratos, inclusive os muito disseminados aluguéis residenciais, apontou uma nova uma deflação em maio, com queda de 0,93% sobre abril, quando o índice já havia recuado 1,1%. Em 12 meses, a alta do IGP-M está em 1,57%. O IPCA, índice que baliza o sistema de metas de inflação, vai na mesma toada, embora um pouco menos acentuada. Sua variação em abril não passou de 0,14%, acumulando 4,08%, em 12 meses. Em maio, pode dar um repique, com o índice mensal chegando a 0,5%, mas em 12 meses cairá abaixo de 4%.


Não há, em resumo, grande risco de pressões inflacionárias à frente. A taxa de câmbio, que subiu na esteira da crise política e poderia trazer algum gás para a inflação, já se acomodou. Há. no momento, abundante liquidez internacional e o setor externo brasileira vai bem.

Na verdade, o “risco” é de que a variação acumulada do IPCA se aproxime do piso do intervalo da meta, de 3%. Projeta-se queda acentuada até pelo menos agosto, mas a volta no restante do segundo semestre dificilmente levará o IPCA a mais de 4%.

Do mesmo modo, a atividade econômica não dá mostra de recuperação consistente. Nesta quinta-feira, o IBGE deve divulgar um resultado positivo para o primeiro trimestre do ano, algo que não se via há 11 trimestres. Espera-se um crescimento, na comparação com os três meses anteriores, de 1%.

Mas esse, quando se observa o horizonte no futuro próximo, pode ser um resultado “falso positivo”. A tendência é que essa “recuperação”, devida quase inteiramente ao excepcional desempenho da agropecuária no período e alguns problemas em séries estatísticas, não se sustente. Para o ano, as previsões são de uma expansão da atividade econômica abaixo de 0,5%. Pouco quando se lembra que, no acumulado dos últimos dois anos, a economia recuou mais de 7%.

É nesse quadro de deflação e atividade muito enfraquecida, com desemprego de quase 14%, capacidade ociosa, pessoas e empresas às voltas com dívidas, que parecem se abrir espaços para cortes mais profundos nas taxas básicas de juros. O Banco Central, contudo, temoroso com o que possa acontecer com o ajuste fiscal, pisou no freio. A conferir se, como em outubro e novembro, quando claramente errou ao iniciar com excessiva timidez o atual ciclo de corte dos juros básicos, não reincidiu agora no mesmo equívoco.