As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Termômetro da variação de preços aponta economia ainda em recessão

José Paulo Kupfer

09 Junho 2017 | 14h44

O IPCA subiu em maio, na comparação com abril, mas a tendência da inflação claramente continua para baixo. Contra 0,14% no mês anterior, a variação  no mês passado foi de 0,31%. Mesmo assim é a mais baixa para meses de maio desde 2007, assim como é a mais baixa, no acumulado em 12 meses, também desde 2007, com alta de 3,6%. No ano, com uma elevação de 1,42%, a variação do IPCA é a menor desde 2000.

Energia elétrica foi o item que mais pressionou o IPCA em maio, seguido de artigos de vestuário. O primeiro, em razão da retirada de um desconto na tarifa, e o outro, por elevações típicas da época, com a entrada das coleções de inverno, trouxeram pressões já esperadas. 

Do lado inverso, também eram esperadas descompressões em alimentos, mas a força do recuo surpreendeu os analistas. Não só alimentos, mas também serviços, a categoria mais resistente à queda de preços, reforçou em maio a tendência à acomodação que vem exibindo nos últimos meses — reforçou também a convicção de que o recuo acentuado a inflação se deve à fraqueza da atividade econômica. No geral, o índice de difusão, que informa, em termos relativos, o número de itens cujos preços subiram no período, ficou em 51,7%, bem abaixo das médias históricas, superiores a 60%.

A tendência deflacionária deve continuar e se mostrar ainda mais nítida em junho. Projeções apontam variação zero ou mesmo uma pequena variação negativa, apesar dos aumentos já contratados no gás de cozinha. Sem novidades em alimentos, que prometem continuar em baixa, refletindo a safra recorde de grãos e a ausência de problemas climáticos nos instáveis legumes e hortaliças, as tarifas de energia, agora com a bandeira verde, devolverão as altas do mês passado. 


Caso as previsões se confirmem, o IPCA acumulado em 12 meses recuará para vizinhanças de 3,2%. A marcha ladeira abaixo do IPCA deve prosseguir até agosto, quando a variação da inflação acumulada em 12 meses pode recuar para menos de 3%, numa inédita situação em que a alta de preços furou o piso do intervalo do sistema de metas. A partir de setembro, a curva projetada pode dar um repique ligeiro e levar a inflação a fechar o ano com variação em torno de 4% ou até um pouco abaixo, se a economia permanecer sem reação. 

Em seu novo twitter, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comemorou a inflação bem comportada e atribuiu esse comportamento à “nossa agenda de reformas”. Com todo o respeito, a verdade não parece ser bem essa. Quem sabe a agenda de reformas possa contribuir no futuro para o equilíbrio da atividade econômica, ajudando a tirá-la das frias cavernas em que ainda se encontra. 

No curto prazo, porém, o que está reduzindo a inflação é a persistência de uma recessão profunda e prolongada. O fenômeno está sendo bem apontado pelo termômetro dos índices de preço, ainda estacionado nos pontos baixos da sua escala de mercúrio. Estão informando que a desejada recuperação da economia ainda não deu maiores sinais de vida.