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Termômetro inflacionário ainda indica economia com baixa temperatura

José Paulo Kupfer

07 Julho 2017 | 14h27

A marcha desinflacionária, iniciada há um ano e meio, prosseguiu e se aprofundou em junho. Com uma deflação mais acentuada do que indicavam as projeções, o IPCA do mês passado variou 0,23% para baixo. Os motivos para a presente trajetória da variação de preços, que acumula alta branda de 1,18% no ano e 3%, no acumulado em 12 meses — piso do intervalo de tolerância do regime de metas —, são os mesmos dos meses anteriores: consumo retraído, ainda afetado pelo desemprego e o endividamento das famílias, e oferta abundante de alimentos, item com o maior peso individual no índice.

Se a inflação é um termômetro da temperatura da economia, sua escala de mercúrio está ainda está mostrando a prevalência de desequilíbrios baixistas. Mesmo afrouxados pela boa safra de grãos e condições climáticas favoráveis para os hortifrutis, os preços dos alimentos cedem diante da demanda enfraquecida. Os preços das carnes, por exemplo, também apresentaram recuos e estes também refletem demanda retraída, uma vez que a oferta está sendo dividida com as exportações.

O resumo da história, narrada pela inflação de junho e pelas tendências previsíveis da variação dos preços para os próximos meses, mostra que o esboço de recuperação econômica localizado aqui e ali, em abril e maio, ainda não tem força para reverter o quadro de baixo crescimento. É verdade que foram observadas altas — moderadas, mas razoavelmente disseminadas —, em alguns segmentos nos serviços pessoais e este, não sendo um sinal de retomada, pode estar indicando algum tipo de movimento rumo à estabilização.

É possível que o quadro de instabilidade política, hoje acentuada com a perspectiva de substituição do próprio presidente Michel Temer, esteja exercendo um certo peso na postergação de uma eventual recuperação econômica, na medida em que pode promover adiamento em decisões empresariais de investimento e de consumo, sobretudo de bens duráveis, da parte das famílias. Mas não pode ser tomado como preponderante na trajetória desinflacionária em curso.

A economia em baixa temperatura deve continuar prevalecendo para desenhar a curva descendente futura da variação dos índices de preços. Também não há vislumbre de choques de oferta, pelo menos até o último trimestre do ano, assim como se imaginam pouco prováveis repiques cambiais capazes de reverter a marcha moderada dos preços, dada a situação folgada da liquidez internacional e a existência de taxas de juros ainda atraentes na economia brasileira.

O que a inflação está revelando é que existem espaços para cortes mais agressivos nas taxas básicas de juros, mesmo sem um avanço mais firme, neste momento, das inevitáveis reformas estruturais, ainda que possam vir a ser suavizadas. Depois da inflação de junho, os analistas reforçaram projeções para uma variação do IPCA de 3,2% a 3,5%, em 2017, e de 4,2%, em 2018, ambas abaixo do centro da meta estabelecida. Dada a capacidade ociosa existente e a folga no mercado cambial, cortar mais rápido os juros, num ciclo que se prolongaria até atingir 8% anuais, provavelmente ajudaria a economia a reagir com mais ânimo do que está atualmente demonstrando.

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