Ecossistemas de negócios

Ecossistemas de negócios

Claudia Miranda Gonçalves

13 Agosto 2016 | 16h24

novas formas de se fazer negócios

novas formas de se fazer negócios

Se você compartilha a visão de que as empresas são vivas, têm almas, personalidades, evoluem (ou não!), então não será difícil pensar sobre um ecossistema de negócios.  Sistemas vivos, diferentemente de máquinas, criam-se a si mesmos. Não são simples montagens de suas partes, mas crescem continuamente e transformam-se junto com seus elementos constituintes. Para Goethe, por exemplo, o todo é sempre algo dinâmico e vivo que continuamente vem a ser “em manifestações concretas”. Uma parte, por sua vez, é uma manifestação do todo, em lugar de um simples componente. Nem todo, nem parte, existe um sem o outro.

 

Arie de Geus, um pioneiro do movimento de aprendizagem organizacional explica que o séc. XX testemunhou o nascimento de uma nova espécie no planeta: as corporações globais. Essas instituições estão proliferando sem fronteiras, juntamente com infraestruturas globais de finanças, distribuição e suprimentos, e comunicação que essas instituições vão criando. Podemos vê-las como novas espécies, pois têm o potencial de crescer, evoluir e aprender. Isso mudou nosso meio ambiente econômico mesmo para as medias e pequenas empresas.


O Professor Carlyss Y. Baldwin estuda o tema dos ecossistemas de negócios – definidos como grupos de empresas que conjuntamente oferecem produtos complexos e serviços relacionados para atender de ponta-a-ponta as necessidades de usuários na cadeia de valor. Um exemplo: a integração de media, tecnologia e telecomunicações.

Mas, como funcionam ecossistemas? O que podemos transpor da biologia para os negócios? O que precisamos saber sobre sistemas vivos? Bactérias, cães, gatos, humanos e organizações – não importa qual – estamos sob as mesmas leis. De acordo com Fritjof Capra, são 5 características básicas que têm papel na sustentabilidade de um ecossistema. Aqui, para além de salvar plantas e animais em extinção, precisamos pensar que sustentabilidade = sobrevivência no longo prazo.

  • Interdependência

O comportamento de um membro depende daqueles de muitos outros membros. O sucesso da comunidade toda depende do sucesso de cada um de seus membros, enquanto o sucesso de cada membro depende do sucesso da comunidade como um todo. Num ecossistema de negócios, as empresas precisam se ver como parte de um todo e precisam entender o cenário mais amplo.

num ecossistema cada parte faz o todo

Num ecossistema cada um parte faz o todo

  • Reciclagem

Um dos principais desacordos entre a economia e a ecologia! A natureza é cíclica, enquanto nossos sistemas industriais são lineares. Nossas atividades econômicas extraem recursos, transformam-nos em produtos e em resíduos, e vendem os produtos para os consumidores, que descartam ainda mais resíduos depois de ter consumido os produtos. Os padrões sustentáveis de produção e de consumo precisam ser cíclicos, imitando os processos cíclicos da natureza. Para conseguir esses padrões cíclicos, precisamos replanejar num nível fundamental nossas atividades comerciais e nossa economia. Será que estes ecossistemas de negócios estão incluindo empresas que podem cuidar de nossos resíduos?

precisamos fechar nossos ciclos econômicos

Precisamos fechar nossos ciclos econômicos

  • Parceria

Nas comunidades humanas, parceria significa democracia e poder pessoal, pois cada membro da comunidade desempenha um papel importante. Combinando o princípio da parceria com a dinâmica da mudança e do desenvolvimento, também podemos utilizar o termo ‘coevolução’ de maneira metafórica nos ecossistemas de negócios. À medida que uma parceria se processa, cada empresa passa a entender melhor as necessidades dos outros membros. Numa parceria verdadeira, confiante, ambos os parceiros aprendem e mudam – eles coevoluem. A economia enfatiza a competição, a expansão e a dominação; ecologia enfatiza a cooperação, a conservação e a parceria. Quais os princípios de governança necessários para que economia e ecologia convirjam? Quais as regras que estes sistemas devem adotar?

Pensando nos ecossistemas de negócios, podemos fazer perguntas mais detalhadas:

Qual é a elasticidade desses sistemas?

Como reagem a perturbações externas?

Essas questões nos levam a mais dois princípios da ecologia – flexibilidade e diversidade – que permitem que os ecossistemas sobrevivam no mundo VICA (Volátil – Imprevisível – Complexo – Ambíguo).

Parcerias dependem do engajamento de todos

Parcerias dependem do engajamento de todos

  • Flexibilidade

A flexibilidade de um ecossistema serve para trazer o sistema de volta ao equilíbrio sempre que houver um desvio, devido a condições mutáveis. Perturbações desse tipo acontecem o tempo todo, pois o meio ambiente está sempre mudando, o que leva a uma transformação contínua. Todas as variáveis que podemos observar num ecossistema – densidade populacional, disponibilidade de recursos, e assim por diante – sempre flutuam. O estado flexível deixa o sistema pronto para se adaptar a novas condições. Quais são as estratégias que podem ajudar os ecossistemas de negócios a se manterem flexíveis? como devem lidar com as mudanças? Como adequar regras e processos?

A flexibilidade também pede uma estratégia para a resolução de conflitos. No ecossistema de negócios haverá contradições e conflitos que não podem ser resolvidos em favor de um ou outro lado. O ecossistema de negócios precisará de estabilidade e de mudança, de ordem e de liberdade, de tradição e de inovação. Esses conflitos inevitáveis são muito mais bem-resolvidos estabelecendo-se um equilíbrio dinâmico, em vez de decisões rígidas. Precisamos reconhecer que ambos os lados de um conflito podem ser importantes, dependendo do contexto, e que as contradições no âmbito de um sistema são sinais de sua diversidade e de sua vitalidade e, desse modo, contribuem para a viabilidade do mesmo. Assim, em um ecossistema de negócios, a tensão e diversidade trarão soluções mais robustas e interessantes para os beneficiários que se houver um ponto de vista dominante e único.

flexibilidade para garantir o equilibrio do sistema

Flexibilidade para garantir o equilibrio do sistema

  • Diversidade

O papel da diversidade estará estreitamente ligado à estrutura em rede do sistema. No ecossistema de negócios, a diversidade significa muitas relações diferentes, muitas abordagens diferentes do mesmo problema. Um sistema diversificado é elástico, capaz de se adaptar a situações mutáveis.

No entanto, se o ecossistema de negócios estiver fragmentado em grupos e em empresas isoladas, a diversidade poderá tornar-se uma fonte de preconceitos e de atrito. Por outro lado, se as empresas num ecossistema de negócios estiverem cientes da interdependência de todos, a diversidade enriquecerá todas as relações e, desse modo, cada um dos seus membros, bem como a comunidade como um todo. Nesse sistema, as informações e as ideias fluem livremente, e a diversidade de interpretações e de estilos de aprendizagem – até mesmo a diversidade de erros – enriquecerá todo o sistema.

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Existem implicações importantes para a gestão, pois a inovação em um ecossistema de negócios tem um caráter diferente daquele das empresas verticalmente integradas. Toas empresas do ecossistema devem estar cientes do cenário mais amplo. A inovação em ecossistemas pede ação coletiva tanto para inventor quanto para avaliar fluxos de conhecimento entre as organizações do ecossistema, arquiteturas modulares, e um bom nível de manejo de sistemas legados. Estes ecossistemas apoiam-se em plataformas múltiplas e complementares.

 

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