Nuvens geram pegadas????

Nuvens geram pegadas????

Claudia Miranda Gonçalves

03 Outubro 2017 | 10h00

Hoje temos o prazer de receber este texto sobre o custo energético nada inocente da internet.

Quem escreve é Eliane Tarrit, sua bio está no final do texto.

 

Internet e pegada ambiental

A Internet está a ponto de se tornar indispensável para gerenciar e conduzir nossas atividades diárias, seja no âmbito profissional, do lazer e até as necessidades básicas do nosso quotidiano. Já não se questiona seu papel revolucionário nas comunicações e até como extensão da nossa memória. Atualmente já somos 3,8 bilhões de pessoas conectadas, o equivalente a 51% da população mundial, segundo estimativas da ONU. Um número que não para de crescer.


Graças à Internet, boa parte das nossas atividades corriqueiras estão passando do concreto ao virtual. São pequenas revoluções no nosso modo de vida: fazer compras sem sair de casa, comunicar-se instantaneamente com familiares e amigos distantes, escolher filmes e programes de TV que queremos assistir e quando, etc. Tudo isso contribuindo com a conservação do meio-ambiente, como reduzir drasticamente a produção de documentos em papel, o que representa menos árvores cortadas. E já não precisamos comprar CDs ou DVDs, nem armazenar dados em nossas máquinas, pois podemos enviar para a “nuvem” (cloud). Um nome suave que contribui para a nossa visão idealizada da virtualização e a sensação que nossos dados (e-mails, imagens, vídeos, comentários…) circulam em uma dimensão etérea e impalpável.

 

A realidade é outra…. Para viabilizar o mundo virtual, os dados numéricos que dão tangibilidade às nossas ações são tratados em uma estrutura concreta e bem pesada, instalada ao redor do planeta. São milhões de quilômetros de fios de cobre, milhões de quilômetros de fibra ótica e datacenters gigantescos distribuídos ao redor do planeta. Antes de chegar ao destino, os dados percorrem em média 15.000 quilômetros na velocidade da luz, em uma rede que não tem nada de virtual e que consome muita, muita energia. Assim como no mundo “real”, uma ação no mundo virtual se concretiza em consumo de energia. Se como usuários isolados nosso impacto em recursos é limitado na escala planetária, quando observamos o conjunto de usuários ao redor do mundo os números crescem de forma astronômica, situando o impacto ambiental da internet num contexto em que as vantagens compensam apenas parcialmente o impacto energético.

Para entender melhor o que representa esse consumo, basta comparar com elementos bem conhecidos nossos: assistir uma hora de vídeo streaming no tablet ou smartphone consome mais eletricidade que uma geladeira durante todo o ano; baixar a versão digital do seu jornal favorito equivale a uma carga de roupas lavadas na máquina. E o sistema de mensagens? Cada e-mail enviado (sem nenhum anexo) consome o equivalente 5 W/h (quantidade de energia utilizada para alimentar uma carga com potência de 5 watt pelo período de uma hora), a cada hora são enviados cerca de 10 bilhões de e-mails, ou seja, uma média de 50 Giga W/h. Isso corresponde à produção elétrica de 15 centrais nucleares, ou ainda a 4 mil vôos de ida e volta entre Paris e Nova York. A pegada ambiental anual do spam a nível mundial equivale a 3 milhões de automóveis circulando no mesmo período. São 17 milhões de toneladas de CO2 liberadas na atmosfera.

 

Esse apetite por eletricidade resulta de diversos fatores – produção dos componentes do sistema, consumo individual de energia dos usuários, etc. Porém, o grande vilão do sistema chama-se datacenter. Se considerássemos o conjunto de datacenters em operação como um país, seria o quinto maior consumidor de energia do mundo, à frente de países como o Brasil, Canadá e Alemanha. É para um desses que vão todos os nossos dados, imagens, mensagens e o que mais precisar ser armazenado ou redirecionado. Dentro de um datacenter, tudo é desmesurado. Uma infinidade de servidores com processadores de alta performance, funcionando 24 horas por dia, sem interrupção, para garantir a disponibilidade dos sites aos usuários em qualquer ponto do planeta e assegurar o acesso aos dados a qualquer momento. Além disso, é preciso evitar a todo custo o maior pesadelo: a perda de dados no caso de pane em alguma máquina. Logo, todas as máquinas têm mais uma ou duas de backup. Uma medida de segurança chamada de “redundância”, e que se aplica igualmente ao risco de pane no fornecimento elétrico, justificando a existência de geradores de energia de altíssima potência. Mas os processadores não são o único consumidor voraz de energia num datacenter. Você já reparou o quanto o seu notebook aquece, quando trabalha com ele sobre os joelhos? Uma imagem que leva a imaginar o calor acumulado por dezenas e dezenas de servidores concentrados num imenso hangar. Para refrigerar esse ambiente e impedir uma pane geral em razão do superaquecimento, é necessário instalar dezenas de aparelhos gigantes de ar condicionado capazes cada um refrigerar um hotel de cinquenta apartamentos, e que funcionam com… eletricidade. A produção de energia para atender a essas demandas é um aspecto crítico para os gigantes da internet (Google, Apple, Facebook, Amazon, Netflix…). Em 2007 Facebook, Apple e Google instalaram datacenters na Carolina do Norte, graças às grandes reservas de carvão das montanhas da região, passando a utilizar uma fonte de energia barata, segura, mas extremamente poluente. Ironicamente, a “nuvem” se tornou concreta e nociva nas chaminés das usinas de carvão dos Apalaches, que há muito tempo abandonaram a exploração subterrânea e passaram a “decapitar” as montanhas a partir do topo.

Portanto, embora invisível ao consumidor a pegada ambiental da Internet é considerável.

 

Felizmente, os grandes players envolvidos nesse segmento estão reagindo e já existem ações com o propósito de mitigar os impactos da atividade. Em 2011 o Google inaugurou um datacenter em Hamina, na Finlândia. Instalado em uma antiga fábrica de papel, que já utilizava as águas geladas do mar para arrefecer sua caldeira, emprega o mesmo sistema para refrigerar seus servidores, reduzindo assim uma enorme fatia do consumo de energia. Nessa ocasião, o Google se comprometeu em abandonar totalmente o carvão, empregando 100% de fontes renováveis em sua matriz energética, entre energia solar e eólica. Em seu último relatório de sustentabilidade (2016) a empresa anunciou que se preparava para atingir essa meta em 2017. Já o Facebook, embora ainda dependa do carvão para cerca de 20% de suas operações anunciou em agosto (2017) a inauguração de seu décimo datacenter em New Albany, Ohio, que opera com 100% de energia limpa e renovável. Esse tipo de energia representa 43% da matriz energética da organização. São alguns exemplos que mostram que os líderes desse setor símbolo da inovação não estão indiferentes ao aspecto energético e buscam inovar também nesse quesito.

Existem ainda iniciativas mais modestas, porém não menos criativas. A empresa francesa Qarnot Computing concebeu uma forma de descentralizar seu datacenter, reduzindo sua fatura de eletricidade. Eles desenvolveram processadores de dados que se comportam como aquecedores de ambientes. Os aparelhos instalados em prédios residenciais ou escritórios de empresas aquecem os ambientes sem ruído ao mesmo tempo que processam os dados dos clientes da Qarnot. O sistema oferece ainda wi-fi, detector de presença, monitoramento da qualidade do ar e gestão do consumo de eletricidade. Entre os clientes da Qarnot que aderiram à inovação estão BNP Paribas e Disney, ao lado de parceiros tecnológicos como HP, Microsoft, IBM e Intel.

A área acadêmica também já orientou seus radares nessa direção, a exemplo da Escola Politécnica de Montréal. Pesquisadores do departamento de Energia Elétrica desenvolveram um sistema capaz de otimizar a gestão dos datacenters para obter mais eficiência energética, menor tempo de resposta e custos reduzidos.

A internet é portanto um bem de consumo como qualquer outro. E como em qualquer segmento acarreta consequências e externalidades decorrentes de suas atividades, que serão de volume proporcional às dimensões do próprio segmento. Significativo em sua extensão, o impacto ambiental da internet pode constituir também uma grande oportunidade para a inovação e o empreendedorismo com propósito. Ouso dizer que estamos falando de blue ocean… Alguém se habilita?

 

Eliane Olivieri Tarrit

 

Eliane Tarrit

 

eliane.avec@gmail.comSócia e criadora da Avec – Assessoria Empresarial Colaborativa, onde atua em consultoria nas áreas de Gestão da Sustentabilidade, Responsabilidade Corporativa e Comunicação.

Atual Consultora em Sustentabilidade para o Instituto Renault, do qual foi gestora durante 2 anos. Foi coordenadora de publicidade da Renault do Brasil, tendo conduzido as campanhas de lançamento de Duster e Sandero no país, entre outras.

Designer gráfico com pós-graduação de Gestão em Responsabilidade e Marketing Social, possui cursos de Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Laval (Canadá), e na CNAM (França); Introdução à Ética Filosófica na Universidade de Genebra (Suíça); Parcerias que mudam o Mundo, Empreendedorismo para mudar o Mundo e Relato Extra Financeiro na ESSEC (França), Certificado GRI Internacional para GRI-G4 e Standards, entre outros.